A dificuldade da esquerda para se reinventar

Com a perda de prestígio dos últimos anos, a esquerda busca renovar sua agenda para recuperar apoio da população, mas não conseguiu produzir um nome de peso além do ex-presidente Lula, cuja candidatura é incerta.

O impeachment de Dilma Rousseff e a crise econômica principiada no início do segundo mandato petista determinaram um cenário trágico para a esquerda nos últimos três anos. A autocrítica sobre o envolvimento em casos de corrupção e alianças políticas questionáveis durante os 13 anos de PT no poder não foi feita, e o distanciamento foi sentido nas urnas. A prova do desgaste ocorreu nas eleições municipais de 2016, que deram um sinal claro de que o discurso do campo progressista fora minado na relação com a sociedade.

"Desde 2002 o PT, como governo, teve muitos acertos, mas também muitos erros. Os acertos são cantados em prosa e verso por todos: Bolsa Família, pleno emprego... Mas também houve erros, e de duas naturezas: o primeiro foi ter deixado intacto a financerização do país e não ter mexido na distribuição dos impostos, taxação de grandes fortunas. O segundo erro foi o envolvimentos com os setores mais conservadores e patrimonialistas da política brasileira, que exigiu pagamentos para  apoiar o PT e suas políticas no Legislativo. Isto foi o pontapé inicial do envolvimento do PT nos escândalos de corrupção que se desdobram até hoje", analisa Céli Pinto, doutora em Ciência Política pela Universidade de Essex, na Inglaterra, e professora da UFRGS.

Pesquisas realizadas após as eleições de 2016 mostram o mapa da derrocada dos partidos que se intitulam de esquerda. Na contagem nacional, o PT foi eleito em apenas 254 prefeituras, um forte contraste em relação aos 638 prefeitos eleitos em 2012. No grupo denominado G-93, que reúne 26 capitais e todas as cidades com mais de 200 mil eleitores, o PT reduziu seu número de 14 para apenas uma prefeitura: Rio Branco, no Acre.

O PDT, do presidenciável Ciro Gomes, elevou o número total de prefeitos (307 para 335), mas perdeu terreno no G-93: de 12 para quatro prefeituras. O PC do B aumentou o número nacional (54 para 81), mas recuou no grupo que gere um número maior de eleitores, perdendo mandatos em Olinda (PE) e Contagem (MG), por exemplo. O PSOL, que se posiciona mais à esquerda, governa apenas duas prefeituras no país. E a Rede, que flerta com o centro – mas tem em seu quadro nomes como o senador Randolfe Rodrigues (AP) e o deputado Alessandro Molon (RJ) –, elegeu seis prefeitos.

Fragmentação política

"Falta liderança legítima", analisa o professor emérito do Departamento de Filosofia da USP Ruy Fausto. "Há por um lado os partidos (PT e PSOL, principalmente), que estão mais ou menos em mau estado. O PT vai muito mal. O PSOL é um feixe de tendências, a maioria das quais têm ilusões com políticas do passado. Mas há também gente boa no PSOL. Há, por outro lado, os movimentos sociais. Importantes, mas as ideias da sua cúpula não vão muito longe", diz Fausto à DW Brasil.

O ex-ministro da Educação durante parte do segundo mandato de Dilma Rousseff Renato Janine Ribeiro vê a esquerda na defensiva, por não ter apresentado novas ideias enquanto esteve no poder.

"Durante 10 anos, a esquerda esteve no governo possuindo dinheiro. Quando o dinheiro acabou, eles não souberam o que fazer. Quem estava no governo tentou. Quem era apoio ao governo não conseguiu entender. Eu, como ministro, recebi uma quantidade enorme de pessoas que só pediam dinheiro, mas não propunham nada", conta Janine, em entrevista à DW Brasil.

Recuperar a confiança do eleitorado vai demandar uma nova agenda de propostas, avalia Céli Pinto. "As bandeiras da nova esquerda estão nas reformas importantes para minimizar as desigualdades, como a reforma urbana, reforma tributária, uma reforma na educação que mude radicalmente a situação crítica em que se encontra no país. Deve-se lutar pela garantia de direitos conquistados ao longo de quase um século e incorporar as demandas dos movimentos dos sem teto, das mulheres, da população LGBT e de todos os outros grupos tradicionalmente excluídos", pondera.

Publicada originalmente em: http://www.dw.com/pt-br/a-dificuldade-da-esquerda-para-se-reinventar/a-40697350

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