A distância entre ciência e sociedade

Os incentivos dados aos estudiosos os distanciam da sociedade. Não é um problema do Brasil, mas dos países ocidentais em geral, inclusive da Finlândia

Por Pedro H. J. Nardelli 

 

Nas últimas semanas, muito se falou sobre pós-verdade. Tal termo foi traduzido do inglês post-truth para indicar situações em que os fatos objetivos são menos importantes do que emoções e crenças para composição da opinião pública. Mas, o que significa tal objetividade?

 

Fatos objetivos são constantemente relacionados à caracterização de fenômenos através de teorias científicas. Tais teorias, uma vez estabelecidas, passam a ser consideradas verdade. Nesse caso, a pós-verdade tende a ser vista como uma má comunicação de conhecimentos científicos, cuja solução seria uma combinação entre uma melhor comunicação por parte dos cientistas e uma melhor educação científica dentro da sociedade em geral.

 

Essa solução é, no entanto, apenas ilusória. O problema é mais profundo e está relacionado ao modo no qual a ciência é produzida em nossa sociedade e está estruturalmente acoplada com os processos de avaliação desempenho e alocação de recursos.

 

Uma vez que a qualidade do processo científico é quantificada através de métricas como números de artigos publicados, número de patentes, número de dissertações e teses orientadas etc., o trabalho de um pesquisador bem sucedido é obter mais pontos dentro desse sistema de regras pré-estabelecido.

Esse movimento acontece em um ritmo acelerado e, então, os pesquisadores tendem a permanecer em suas zonas de conforto. O trabalho se torna algo burocrático em torno de manter estratégias vencedoras (cumprir as regras) sem maiores questionamentos críticos.

Dessa forma, a pesquisa científica se torna cada vez mais especializada em sua própria autorreprodução, isolando-se de todo o resto. Os diversos grupos de pesquisadores especialistas formam seu mundo particular, com seus próprios hábitos, terminologias, normas etc.

Apesar dessas tendências aparecerem em diferentes modos para as diferentes disciplinas, elas surgem recorrentemente e são cristalizadas em forma de teorias científicas (super)especializadas. Por sua recorrência, tal fenômeno deve ser visto como algo mais permanente, estrutural.

Disciplinas não podem ser vistas como um apanhado de teorias sobre fenômenos relacionados; disciplinas, na verdade, têm efeitos estruturais, quase permanentes, no futuro de cada teoria sobre seu guarda-chuva. Disciplinas, uma vez estabelecidas, constituem os pesquisadores que produzirão as novas teorias dentro dessa mesmas disciplinas.

Por exemplo, qualquer um que queira contribuir para o desenvolvimento de alguma teoria em uma dada disciplina não pode se isolar do que já foi estabelecido. Se uma pessoa foi educada em uma disciplina específica, suas decisões se tornam bastante limitadas e quase nunca revolucionárias.

As estruturas específicas de cada disciplina já condicionaram a educação dos pesquisadores muito antes. Todos treinados em uma dada disciplina são constituídos por suas normas, relações, teorias, práticas e métodos.

Se o pesquisador utilizar de sua liberdade para tentar algo revolucionário, há uma grande chance de ele não conseguir ter seus artigos publicados, nem seus projetos financiados, uma vez que todos os outros pesquisadores que julgarão o trabalho foram constituídos pela disciplina já estabelecida. Tal fenômeno – apesar de algumas poucas exceções – pode ser visto em todas as áreas do conhecimento e em todos os países em que teorias científicas são produzidas.

Dentro dessa dinâmica do processo científico, há também importantes diferenças entre países. Na Finlândia, por exemplo, a crise atual e medidas de austeridade atingiram as universidades de forma concreta, incluindo demissões em massa.

O governo, por sua vez, impôs – de certa forma unilateralmente e seguindo a receita de consultores internacionais – uma política de ensino superior onde cada universidade deve ter suas áreas de excelência que receberão financiamento, enquanto as outras serão sufocadas até desaparecer.

Além disso, tais áreas de excelência estão diretamente ligadas ao financiamento através de projetos externos, que tradicionalmente são ligados a empresas privadas, cujo objetivo maior é sempre o lucro. Ou seja, os mesmos grupos já bem financiados pelas corporações – que indicam o que deve ser pesquisado e o que é relevante para sociedade – irão receber ainda mais fundos públicos. Como se fala em ingês, the winner gets all (o vencedor leva tudo).

Nesse caso, as universidades, assim como pesquisadores individuais, deverão trabalhar em primeiro lugar para aumentar o PIB do país seguindo regras impostas pelo alto escalão. As finlandesas, cada vez mais, se assemelham a empresas privadas estruturadas em formas anti-democráticas.

Tal tendência é globalizada e pode ser vista em todos países onde existe pesquisa, cada qual com suas especificidades históricas e conjunturais.

Essa visão é brutalmente contrastante com a utopia de que ciência é neutra, objetiva e livre de ideologia. Ciência é um fenômeno social e deve ser entendida como tal. Então, ela só pode mudar estruturalmente em paralelo com toda a sociedade, com as formas sociais estabelecidas. Se vivemos num período dominado por métricas de desempenho que visam ao lucro em primeiro lugar, a ciência não poderia escapar de tal destino.

A forma do processo científico apresentada até agora emerge e co-evolui com outras formas sociais existentes, numa dinâmica complexa e contextual. Num mundo em que tudo é mercadoria e alienável, a ciência se constitui e constitui seus praticantes através dessas bases fundamentais.

Apesar de tais limites estruturais, nada disso quer dizer que a ciência não precisa de uma boa comunicação. Muito pelo contrário, uma teoria científica só realiza seu valor se for bem entendida. Isso é condição necessária para sua aplicação.

Ainda assim, uma boa comunicação não pode mudar a situação em que teorias científicas se tornam (super)especializadas em sua autorreprodução. Comunicação não é capaz de dar relevância a algo que é irrelevante fora de seu próprio domínio, ou seja, a contratação de profissionais de mídia (i.e. especialistas em marketing) pelas universidades (como no caso da Finlândia) não muda tal fato.

Tal pessimismo com as formas de sociabilidade vigentes dão base para esperança. O futuro não está escrito e mudanças sociais sempre foram possíveis. Num mundo novo baseado em pura cooperação, tudo deverá ser dividido em relação à necessidade das coisas, pelo valor de seu próprio uso, e não em acumulação nem em lucro.

Se esse tipo de relação constituir a sociedade do futuro, então a ciência deverá ter uma forma bem diferente, uma relacionada ao seu uso, e não a quantificadores. Talvez, se esse dia eventualmente chegar, a diferenciação entre sociedade e ciência, público em geral e cientistas, nós e eles, perderá completamente o sentido.

Tal mundo ainda não existe e ultrapassa os limites dos Estados nacionais. A luta para construir essa nova sociedade passa, no entanto, por nós e nossos questionamentos sobre nós mesmos, e sobre a realidade material que nos constitui.

Nesse contexto, toda a discussão sobre pós-verdade e objetividade é de certa forma mal-formulada. Ela não consegue capturar a complexidade estrutural do problema e suporta, em suas bases, as formas sociais vigentes.

Uma abordagem científica não deve ser exclusiva a cientistas profissionais e a seu mundo próprio. O papel de um cientista progressista é prover um melhor entendimento da realidade buscando soluções que vislumbrem a transição para esse mundo novo juntamente com o público em geral.

Não é através da institucionalidade vigente que tais soluções vão, no entanto, aparecer, já que suas normas constituintes são moldadas sobre as formas sociais estabelecidas. O novo deve nascer dentro dessa mesma institucionalidade, mas indo além dela, visando um mundo em que ela não existirá e nem será necessária.

Publicado originalmente em: http://www.cartacapital.com.br/blogs/o-brasil-no-mundo/a-distancia-entre-ciencia-e-sociedade

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