A fé em movimento

Por João Luiz Rosa | De São Paulo

"Quebra tudo! Todo mal tem de ser desfeito em nome de Jesus", diz o homem, sem aparecer no vídeo, enquanto a mulher, que ele chama de "capeta chefe", quebra vasos e utensílios religiosos. O local é o Morro do Dendê, na Ilha do Governador, zona norte do Rio; o homem, um traficante supostamente evangélico; e a mulher, a mãe de santo obrigada a destruir o próprio terreiro. Outra cena: em Manhattan, membros da Igreja Presbiteriana da 5ª Avenida entram em seu templo histórico - construído em 1875, pelo mesmo arquiteto que projetou a Bolsa de Valores de Nova York - para ouvir o sermão dominical. Ao púlpito, em vez do pastor, está Timothy Dolan, arcebispo de Nova York e maior autoridade católica da cidade.

 A primeira cena foi fartamente exibida na TV e na internet nas últimas semanas; a segunda ainda não ocorreu - está marcada para domingo, numa comemoração pelo Dia da Reforma Protestante, o movimento religioso que completa 500 anos no dia 31. Qual cena representa melhor a herança da Reforma? O que persiste do cisma que quebrou a hegemonia da Igreja Católica Romana e abriu espaço para a multiplicidade do pensamento religioso no Ocidente?

Para muitos, os dois casos são extremos. Após a divulgação do vídeo, líderes evangélicos vieram a público para criticar a ação e dizer que é impossível ser evangélico e traficante ao mesmo tempo. Da mesma forma, tentativas de reaproximação entre católicos e protestantes são vistas com desconfiança por muitos segmentos nos dois rebanhos. Os episódios mostram, porém, como um movimento iniciado no século XVI continua a desencadear ações tão diferentes, sob um amplo espectro de pensamento. Como em qualquer revolução, julgar a Reforma por um ou outro aspecto isolado não dá conta de sua complexidade.

Em sua origem, a Reforma não era um movimento separatista. A história começou em 31 de outubro de 1517, quando Martinho Lutero, um monge agostiniano, afixou 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, na Alemanha. O documento trazia críticas severas à Igreja Católica Romana, em especial ao comércio das indulgências, uma declaração de perdão dos pecados que Roma vendia para financiar a construção da Basílica de São Pedro.

Quatro anos depois, Lutero foi excomungado, mas o descontentamento já se espalhara pela Europa, lançando as bases da Reforma. O movimento se apoiou em cinco princípios - os chamados "solas" em latim: somente a fé, somente a Escritura, somente Cristo, somente a graça, glória somente a Deus. O termo "protestante" vem de uma tentativa do Sacro Império Romano-Germânico de reverter a liberdade concedida às novas igrejas, em 1529. Príncipes alemães que haviam se convertido protestaram contra as medidas - e o nome "pegou".

Da Europa, a Reforma se espalhou para a América do Norte, em especial os Estados Unidos, país fundado por puritanos ingleses, e, bem mais tarde, para o hemisfério Sul, incluindo América Latina, África e Ásia. É onde, hoje, o protestantismo mais cresce. No Brasil, ganhou contornos bem específicos. "[A religião] nunca chega [a outro lugar] da maneira que era originalmente", diz o reverendo Davi Charles Gomes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Duas forças atuam no processo, explica o pastor. Uma é centrípeta: vai de fora para o centro e exige uma adaptação rigorosa do indivíduo aos princípios religiosos. A outra, centrífuga, é a que predomina no Brasil. Vai do centro para as bordas, o que significa que a pessoa abraça novas convicções religiosas sem, necessariamente, abandonar as anteriores. É uma definição do sincretismo predominante no país. "Como em 'Macunaíma', o índio não consegue ver o loiro porque um é parte do outro", afirma Gomes, em uma alusão ao romance de Mário de Andrade. No livro, obra central do modernismo, o protagonista é um índio negro que entra em uma poça de água encantada e vira branco de olhos azuis.

O Brasil é cada vez menos católico romano, mas isso não significa que o futuro do país seja protestante - pelo menos não no sentido clássico do termo. Em um século, de 1872 a 1970, a participação católica variou muito pouco, caindo de 99,7% para 91,8% da população. Desde então, porém, essa redução vem se acelerando rapidamente. Em 40 anos, até 2010 os católicos saíram do patamar de quase 92% para 64,6%. Enquanto isso, a presença evangélica quadruplicou, saindo de 5,2% para 22,2%.

Leia mais em: http://www.valor.com.br/cultura/5171954/fe-em-movimento

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