A hegemonia anglo-americana no mundo está ameaçada?

Nick Bryant

Sempre houve um conceito que permeou a boa relação entre Estados Unidos e Reino Unido: o de que a liderança global é sempre melhor exercida em inglês.

Mais orgulhosos do que os britânicos, os sucessivos presidentes americanos têm defendido o que chamam de "excepcionalismo americano".

Os primeiros-ministros, de uma forma mais discreta, também acreditaram no excepcionalismo britânico - a ideia de que Westminster é "a mãe do Parlamento" e que o Reino Unido é um modelo de governo e de valores liberais que se consolidou como um "padrão global" a ser seguido.

Na ordem anglo-americana pós-guerra, essas ideias se uniram. A Otan (aliança militar ocidental), o FMI e o Banco Mundial se uniram na Carta do Atlântico assinada por Franklin Delano Roosevelt e Winston Churchill em agosto de 1941.

O sistema de livre comércio que floresceu depois da guerra é muitas vezes chamado de modelo anglo-saxão. A arquitetura global, diplomática, mercantil e financeira, foi em grande parte uma construção de língua inglesa.

No entanto, nas últimas semanas, a ordem anglo-americana parece estar enfraquecida. O inesperado e confuso resultado da eleição britância - em que a premiê Theresa May tentou se fortalecer, mas acabou vendo seu Partido Conservador perder a maioria no Parlamento - faz com que ela pareça ainda mais frágil, com um edifício histórico que resta cambaleando após um forte terremoto.

Existe uma incerteza em Westminster agora, e um certo caos em Washington por causa das polêmicas envolvendo Donald Trump e as acusações de envolvimento de pessoas próximas a ele com a Rússia.

Nem o Reino Unido, nem os Estados Unidos atualmente estão podendo se gabar de terem "governos estáveis". Muito menos podem ser considerados "exemplos globais".

Nas seis semanas desde que Theresa May convocou as eleições, as placas tectónicas do mundo mudaram muito rápido, deixando britânicos e americanos à deriva.

Donald Trump, durante sua primeira viagem internacional, se recusou a endossar publicamento o Artigo 5 do tratado da Otan e repreendeu publicamente seus aliados sobre a partilha de encargos financeiros.

Ele se viu isolado na reunião do G7 (grupo de países mais ricos do mundo) na Sicília. Depois, na sua volta para Washington, anunciou que os Estados Unidos deixariam o Acordo de Paris - uma decisão com impacto enorme em todo o planeta e na geopolítica mundial.

Aqui, "América Primeiro" significou "América sozinha", e Trump parecia se divertir com seu "novo isolamento", como ele fez quando saiu do Acordo Transpacífico logo no início de sua Presidência.

Para o Reino Unido, o impacto diplomático do Brexit também tem ficado mais claro nas últimas semanas. Líderes da União Europeia já começaram a dizer o que eles querem para o acordo de saída do país do bloco - algo que parece que será mais conturbado do que apenas uma separação amigável.

Os 27 membros restantes da União Europeia também deixaram claro que têm a intenção de penalizar o Reino Unido. Quando Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, encontrou Theresa May logo depois de ela ter convocado as eleições, estava visivelmente frustrado.

"Saio daqui dez vezes mais cético do que eu estava antes", disse.

Um diplomata da União Europeia também afirmou: "O Reino Unido deu um tiro em um dos pés. Nós agora vamos atirar no outro."

A primeira-ministra britânica não conseguiu vencer as eleições com vantagem e enfraqueceu seu poder de barganha ainda mais.

Nas últimas semanas, não é só a relação do Reino Unido com a União Europeia que ficou mais tensa. A aliança transatlântica também foi colocada em xeque.

Publicado originalmente em: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40309301

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