A herança de Che Guevara

Por Michael Löwy

Muitos movimentos sociais e até alguns governos de esquerda na América Latina não hesitam em invocar a seu favor as idéias e a luta de Ernesto Guevara. Isso, é claro, não se refere aos governos de centro-esquer­da e orientação socioliberal do Brasil, do Uruguai e do Chile - por certo, preferíveis aos de direita, porém fiéis ao Consenso de Washington.

O guevarismo do século 21 não é o mesmo de 1960-1980, época das lutas guerrilheiras contra as ditaduras latino-americanas. Tomemos como exemplo o novo zapatismo de Chia­pas. Embora a componente guevarista estivesse presente na origem do grupo que formou o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), esse movimento, que se tornou no decorrer da década de 1980 a expressão "orgâ­nica" das comunidades indígenas de Chiapas, privilegiou - após o ato de insurreição de 1994 - a ação política e a mobilização, no fundo, contra os governos neoliberais mexicanos. Entretanto, sem o levante de janeiro de 1994, o EZLN, sempre de armas na mão, treze anos mais tarde não teria se tornado uma referência para as vítimas do neoliberalismo não só no México como em toda a América Latina e no mundo.

O zapatismo combina diversas tradições subver­sivas, mas o guevarismo não deixa de ser um dos ingredientes essenciais dessa efervescente e imprevisível cultura revolucionária: ele se traduz pela constituição de um exército de libertação, pelo fuzil como expressão material da desconfiança dos oprimi­dos em relação ao Estado e às classes dominantes, pela ligação direta entre os combatentes e as massas campo­nesas (indígenas) e pela perspectiva radical de um combate anticapitalista. Nós estamos distantes da aventura boliviana de 1967, porém próximos da ética revolucionária conforme Che a encamava.

Igualmente significativa é a influência em escala maciça do gueva­rismo em certos movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil. Che Gue­vara é uma das principais referências políticas do MST e uma fonte de ins­piração para o que eles chamam de "a mística" do movimento: a radicalidade e o devotamente de seus militantes à causa da justiça social - muitos dos quais pagaram com a própria vida o engajamento contra os latifundiários. Por certo, o MST não é um movimento armado e a guerrilha não faz parte de seus métodos de luta. No entanto, ele não hesita em transgredir, por meio da ocupação de terras, a legalidade e o princípio sacrossanto da propriedade privada. A ética de Che e seu progra­ma de emancipação revolucionária da América Latina são os aspectos funda­mentais de sua cultura sociopolítica.

De uma maneira mais difusa, as ideias de Ernesto Che Guevara - e não apenas sua imagem em bandei­ras e camisetas - estão presentes em vários outros movimentos sociais latino-americanos, dos piqueteros argentinos aos operários bolivianos, dos índios mapuches do Chile aos maias da Guatemala. Com exceção do ELN colombiano, não há mais organizações guevaristas mantendo uma luta armada nos campos. O que Che significa para esses movimentos e esses indivíduos de norte a sul do continente não é o método de guer­rilha rural, mas um certo espírito guevarista, ao mesmo tempo ético e político, composto de revolta contra a dominação do imperialismo, de furor contra a injustiça social capitalista, de luta intransigente contra a ordem estabelecida e de aspiração intensa a uma transformação socialista/revolu­cionária da sociedade.

O que se passa na Bolívia, país onde Guevara verteu seu sangue num último combate? Durante seu discurso de posse como presidente em janeiro de 2006, Evo Morales prestou home­nagem a "nossos antepassados que lutaram": "Tupac Katari por restaurar o Tahuantinsuyo, Simón Bolívar pela grande pátria e Che Guevara por um mundo novo feito de igualdade" Mais recentemente, durante uma cerimônia em outubro de 2007 em homenagem a Che em Vallegrande, Evo declarou: "Nós somos guevaristas. Nós somos humanistas. Nós somos revolucioná­rios" Acrescentando que a herança de Che era "pôr fim ao capitalismo"1 Entre os membros de seu governo há militantes que lutaram ao lado de Che no ELN boliviano, como Loyola de Guzman.

Publicada originalmente em: https://www.carosamigos.com.br/index.php/artigos-e-debates/10970-a-heranca-de-che-guevara

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