Zizek: Amor e Sexo sob o gelo dos contratos

Obcecada em transformar a experiência erótica em algo previsível e controlado, onda moralista ameaça afogar o desejo e sufocar a liberdade sexual das mulheres

Por Slavoj Žižek | Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel | Imagens: René Magritte, Os Amantes (1928) e João Rabello (charge)

Ao menos no Ocidente, as pessoas tornaram-se bastante conscientes sobre o alcance da coerção e da exploração nas relações sexuais.

No entanto, devemos ter em mente também o fato (não menos significativo) de que diariamente milhões de pessoas flertam e praticam o jogo da sedução, com o objetivo claro de encontrar um parceiro para o amor e o sexo. Na cultura ocidental moderna consagrou-se a regra de que ambos os sexos estão habilitados para desempenhar papel ativo neste jogo.

Quando as mulheres se vestem de forma provocadora para atrair os olhares masculinos ou quando se “objetificam” para seduzi-los, não o fazem se oferecendo como objetos passivos. Em vez disso, elas são os agentes ativos de sua própria “objetificação”, manipulando homens e jogando jogos ambíguos, incluindo a reserva total do direito de sair do jogo a qualquer momento, mesmo que, para o olhar masculino, isso pareça em contradição com os “sinais” prévios.

Esta liberdade que as mulheres desfrutam incomoda todos os tipos de fundamentalistas, dos muçulmanos que recentemente proibiram as mulheres de tocar e manusear bananas – ou quaisquer outras frutas que se assemelhem ao pênis – aos nossos machos toscos que explodem em violência contra uma mulher que primeiro os “provoca” e depois rejeita os seus avanços.

A libertação sexual feminina não é apenas uma recusa puritana a ser “objetificada” (como um objeto sexual para os homens), mas o direito de brincar ativamente com a auto-objetificação, oferecendo-se e retirando-se à vontade do jogo. Mas será ainda possível proclamar esses fatos simples? ou a pressão politicamente correta nos obrigaria agora a enquadrar todos esses jogos sob alguma forma de proclamação formal/legal (de consensualidade, etc.)?

Novas formas de pensar

Uma ideia recente e politicamente correta é o chamado “Consent Conscious Kit” (“kit de consentimento consciente”), atualmente à venda nos EUA: uma pequena bolsa com um preservativo, uma caneta, algumas balas de menta refrescante e um contrato simples, que estabelece que ambos os participantes estão livremente de acordo com o ato sexual. A sugestão é a de que um casal, pronto para ter relações sexuais, tire uma foto segurando nas mãos o contrato, ou que ambos o datem e assinem.

No entanto, embora o “kit de consentimento consciente” pretenda dar conta de um problema bastante real, ele faz isso de uma maneira que não é apenas boba, mas diretamente contraproducente. E por que isso?

A ideia subjacente é a de que o ato sexual, para ser purificado de qualquer suspeição de coerção, precisa ser declarado, antecipadamente, como uma decisão consciente de ambos os participantes. Falando em termos lacanianos, ele teria que ser registrado pelo Grande Outro, inscrito na ordem simbólica.

Assim, o “kit de consentimento consciente” é apenas uma expressão extrema de uma atitude que cresce em toda parte, nos EUA. Por exemplo, o Estado da Califórnia aprovou uma lei que exige que todas as faculdades que recebem financiamento do Estado adotem políticas que obriguem seus alunos a fazer uso do consentimento afirmativo, que é definido como “concordância afirmativa, consciente e voluntária para se envolver em atividade sexual” que esteja “em andamento”, em situação em que não se esteja muito bêbado, antes de se engajar propriamente nas atividades sexuais, e quando não haja risco de punição por meio de agressão sexual.

publicado em: https://outraspalavras.net/destaques/zizek-amor-e-sexo-sob-o-gelo-dos-contratos/

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