Para onde vai a República Popular da China? O futuro enigmático do Império do Meio no Século XXI

 

 

 

 

Entre os Estados nacionais do hemisfério Sul se destaca a República Popular da China que, atualmente, ocupa o segundo lugar entre os pesos pesados da economia mundial. No que diz respeito à sua recente ascensão político-econômica, qualquer comentário sobre esta façanha precisa se relacionar com as extraordinárias singularidades histórico-culturais de um país que, no dizer de Paul Kennedy (1989, p. 16), revela uma notável   "precocidade tecnológica", considerando que,  já no século XI:

  • Utilizou o papel moeda como meio facilitador do comércio,

  • Implantou "uma enorme indústria de ferro no norte da China, produzindo cerca de 125.000 toneladas por ano principalmente para o uso militar e governamental", tendo sido "muito maior que a da Inglaterra nas primeiras fases da Revolução Industrial, sete séculos depois" (ibid.) e, 

  • Responsável pela invenção da bússola magnética, organizou, entre 1405 e 1433,  expedições marítimas que chegaram "até as entradas do mar vermelho e Zansibar" (ibid.) e, diante do "poder, tamanho e navegabilidade"(ibid.p. 17) de  sua marinha, poderiam  "ter navegado em volta da África e "descoberto" Portugal várias décadas antes que as expedições de Henrique o Navegador  começassem a aventurar-se ousadamente ao sul de Ceuta"(ibid. p. 17),

  • Mas que acabou não se aproveitando do potencial político- econômico dos seus  avanços   ultramarinos, uma vez que o  seu sistema interno  de dominação bloqueava o surgimento de uma burguesia comercial  que pudesse fazer da conquista dos mercados externos um projeto de estado.  

 

No que concerne aos impactos do enfoque eminentemente  isolacionista da burocracia confuciana para a segurança e o futuro  do Império  do Meio,  estes   vieram  a tona especialmente  no decorrer do  século XIX, quando os tratados desiguais  com  os principais estados europeus, a América do Norte e o Japão transformaram a China num simples joguete das potências imperialistas, mas, ao mesmo tempo,  multiplicavam no interior de sua  sociedade   grandes  movimentações políticas,  tendo suscitado, no período de 1924 ate 1949,  uma   guerra civil entre os nacionalistas da Guomindang e os comunistas, liderados pelo grupo de Mao Tse Tung. Se neste confronto foram os últimos que acabaram se impondo pela voz das armas, era porque tinham entendido a importância da massa camponesa no processo revolucionário, adotando uma política de self-reliance que estava norteada por ingredientes como a rejeição da atitude mimética, a insistência no estudo minucioso da realidade concreta, a compensação da precariedade dos disponíveis meios técnicos e bélicos pela organização  dos recursos humanos  e a  procura de um equilíbrio entre  diretrizes  centralizadas  e  movimentos de massa e   sua energia potencialmente transformadora. Ingredientes que, por sua vez,  tinham fortalecido nos territórios libertados durante os 25 anos da guerra civil a unidade entre as forças rebeldes  e o povo,  cimentada, por sua vez, por  códigos de  hierarquia que  associavam  a disciplina militar com um regime igualitário, transformando, desta maneira, o exercito vermelho visivelmente  num exercito popular[1].

 

[1] “Do comandante maior até  as  praças,  – escreve   Edgar Snow (1974, p. 265,tradução T.M.),  cidadão norte-americano e o primeiro jornalista ocidental que visitou nos anos trinta as zonas vermelhas  -  todos recebem a mesma comida e vestem o mesmo uniforme.  Somente  os oficiais que alcançaram  a posição de líder de batalhão, podiam  dispor de um cavalo ou de uma mula. Eu constatei que mesmo os poucos petiscos disponíveis foram distribuídos de maneira justa – como tais foram encarados durante a minha estadia melancias e ameixas. Havia poucas  diferenças nas  condições de moradia entre os oficiais e os soldados comuns e, entre eles, se relacionavam sem qualquer formalidade.”

 

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