'Eu estudo na Mangueira 6' - as árvores que são salas de aula para mais de 400 mil crianças em Moçambique

Amanda RossiEnviada da BBC Brasil a Matola (Moçambique)

Há um pequeno arvoredo na Escola Primária Samora Machel, em Moçambique, formado por cajueiros, mangueiras, mafurreiras (árvores típicas do sul da África) e acácias. Não está ali para dar frutas, flores ou servir de espaço para brincadeiras. Recostados nos troncos, há quadros-negros. Sob as copas, no chão de areia, estão sentadas cerca de mil crianças, com camisas azul-claro e calças azul-escuro, o uniforme escolar. Essas são as salas-árvore, ou salas-sombra.

"Aqui temos uma terceira classe, que funciona debaixo dessa árvore linda, que no fim vai nos dar uma fruta muito gostosa. Mas serve de sala", afirma Joana Bazine, diretora pedagógica da escola, que tem 61 turmas em salas-árvores e 42 em salas de aula convencionais. No total, são mais de 3 mil crianças estudando embaixo das árvores. "Quando eu vejo uma mangueira, não vejo como árvore, vejo como sala. A Mangueira 1".

A escola, que leva o nome do primeiro presidente de Moçambique, não está nos recônditos isolados do país, mas sim a apenas 30 quilômetros do Ministério da Educação, na região metropolitana de Maputo, a capital. E não é a única. Em todo o país, existem mais de 7,8 mil turmas estudando embaixo de árvores, de acordo com dados de 2016. Como a média nacional é de 60 alunos por turma, isso dá mais de 400 mil alunos. A maioria deles da primeira fase do ensino primário, da 1ª à 5ª série - crianças de 6 a 10 anos.

"Há escolas com muito mais alunos embaixo das árvores do que nós", diz Joana, que trabalha há mais de duas décadas com educação. "As árvores são preciosas. Dali, devem sair professores, engenheiros, advogados".

Moçambique, no Sul da África, tem uma das piores condições de educação do mundo. Segundo avaliação nacional, após os três primeiros anos na escola, apenas 5% das crianças conseguem ler uma frase simples e 7% podem fazer cálculos básicos. Para comparação, no Brasil, metade das crianças tem leitura considerada suficiente até a 3ª série.

O abandono escolar também é frequente. Cerca de metade das crianças que entram na escola completam o ensino primário (até a 7ª série).

"Na região, Moçambique é o país que tem os maiores desafios na área da educação", afirma Michel Le Pecheoux, representante do Unicef em Moçambique.

Mas há um dado positivo: a maioria das crianças está na escola. Hoje, mais de 80% estão matriculadas no ensino primário. É o dobro do registrado no final dos anos 1990.

"O país partiu de uma taxa de escolarização muito baixa e conseguiu resultados muito rápidos. O problema é a qualidade", explica Le Pecheoux. "Como havia muitas crianças fora da escola, foi mais uma corrida para matriculá-las do que se focar no que estavam aprendendo. A situação era tão grave que estava claro que os resultados seriam difíceis de atingir".

O primeiro salto na matrícula ocorreu após a independência de Portugal, em 1975. Em seguida, Moçambique entrou em uma sangrenta guerra civil, que durou 16 anos, e destruiu ou fechou seis entre dez escolas primárias. Após o fim da guerra, em 1992, menos de 1,5 milhão de crianças iam para a escola. A partir daí, começou o segundo salto. Em 2015, já eram 5,9 milhões - um aumento de quase quatro vezes.

Já as infraestruturas não cresceram no mesmo ritmo. Faltam 28 mil salas de aula para o ensino primário e 7 mil para o secundário, segundo o Ministério da Educação de Moçambique. Mas, na última década, só foram construídas 700 salas ao ano. Nesse ritmo, seria necessário meio século para acabar com o deficit e, assim, não precisar mais das salas-árvore.

A consequência é que as crianças são incluídas no sistema escolar, mesmo quando não há condições adequadas para recebê-las. "Qualquer criança que queira estudar a gente acolhe. Nós não recusamos alunos, porque toda criança tem direito à educação", diz a diretora Joana.

"É uma situação difícil, mas esforços têm sido feitos anualmente para proporcionar e melhorar o ambiente de ensino-aprendizagem dos alunos", informou, por nota, o Ministério da Educação de Moçambique. Acrescentou ainda que tem mobilizado mais recursos para construção de salas e aquisição de carteiras e de materiais didáticos.

Publicada em: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-42496053

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