"Boa parte da sociedade está anestesiada, descrente na resistência"

A democracia está em crise, mas há temor de ampliá-la. Por quê? "Muitos têm medo da participação dos pobres", diz professor da UnB

por Bruno Pavan Almeida

O "fim da história", conceito segundo o qual a democracia liberal e o capitalismo formam o conjunto definitivo de organização da sociedade moderna é o ponto de partido do recém-lançado livro Consenso e Conflito na Democracia Contemporânea (Ed. Unesp), do cientista político Luis Felipe Miguel. Professor titular da Universidade de Brasília (UnB), Miguel questiona a "receita infalível" e destaca que, mais de duas décadas depois do fim da Guerra Fria, o mundo parece estar longe de uma união sob um modelo único.

As desigualdades econômicas e políticas, lembra o professor da UnB, não foram extintas com a nova organização e as vozes que exigem uma nova organização são cada vez mais numerosas. Nesta entrevista a CartaCapital, Miguel analisa a resistência à ampliação da participação no processo democrático, no mundo como um todo, mas em especial no Brasil. "Aqueles que estão controlando o poder hoje sabem que o projeto que pretendem implantar, um projeto de desnacionalização da economia e da retirada do compromisso do Estado com a redução da desigualdade social, não ganha eleição no Brasil", diz.

CartaCapital: Na orelha do livro há uma citação à queda do Muro de Berlim como divisor de águas após a Guerra Fria. Naquele contexto Francis Fukuyama falou sobre "o fim da história", marcado pela hegemonia da democracia liberal. Como você avalia essa ideia?

Luís Felipe Miguel: A tese de que com a vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria nós teríamos chegado a uma espécie de momento final da evolução da sociedade nunca teve cabimento. A Guerra Fria representou um embate entre dois sistemas políticos e econômicos diversos, mas se formos pensar os mecanismos que levam à transformação histórica, eles nunca estiveram nesse embate, mas sim nas contradições internas de cada sociedade.

Se a gente for pensar no sistema capitalista, ele tem contradições internas que nunca deixaram de estar presentes. Isso é que leva às transformações e aos movimentos históricos. A ideia de que a história havia acabado porque nós havíamos chegado ao sistema político e econômico definitivo, sempre foi mais parte de uma propaganda política do que uma realidade.

CC: E o que pode ser feito para aperfeiçoar a democracia liberal?

LFM: O único caminho que consigo ver pra que tenhamos essa democracia liberal funcionando melhor é se ela for capaz de reconhecer os seus próprios limites e abrir espaço para uma maior participação das pessoas comuns. Não tem como pensar em um sistema que chegue a decisões com qualidade se ao mesmo tempo queremos manter a maior parte da população em uma situação de deseducação política quase completa.

Muitos querem manter as instituições formalmente funcionando, mas têm medo da maior capacidade de intervenção política daqueles que não são proprietários e da maior participação dos pobres caso ampliemos a participação.

CC: O senhor pode dar um exemplo disso?

LFM: No Brasil, recentemente, tivemos um exemplo disso quando a então presidenta Dilma Rousseff tentou implementar a Política Nacional de Participação Social, em 2014. Era um projeto muito tímido ainda, porque era simplesmente a sacramentação de conselhos consultivos sem poder decisório, mas houve uma grita das bancadas conservadoras e o projeto foi rapidamente arquivado.

"A partir da posse de Michel Temer, temos um processo acelerado de retrocessos nas políticas sociais, em liberdade democráticas e uma série de questões"

Existe um receio de que a maior participação signifique, na prática, uma partilha maior de poder. Só que a democracia é isso, é partilha de poder! Democracia é todas as pessoas terem condições de influenciar, da maneira mais igualitária possível, a tomada de decisões. É importante saber que se a gente quer um sistema mais democrático, temos de aceitar o sentido verdadeiro da democracia.      

Publicada originalmente em: https://www.cartacapital.com.br/politica/boa-parte-da-sociedade-esta-anestesiada-descrente-na-resistencia

Trópico em Movimento © 2016 - 2019.

Campus UFPA - Rua Augusto Corrêa, 01 - Casa do Poema,

Bairro Guamá, 66075-110, Belém, Brasil

(091) 3201-7700

  • Wix Facebook page
  • Wix Twitter page
  • Wix Google+ page