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"O saber que é poder - escrevem Theodor W. Adorno e Max Horkheimer (2006, p. 18) na Dialética do Esclarecimento - não conhece barreira alguma, nem na escravização da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo." Nestes termos, abordam magistralmente a síndrome colonizadora de um viés civilizatório que, no decorrer de sua longa marcha vitoriosa, se especializou no aperfeiçoamento dos seus métodos de dominação da natureza externa e interna da espécie humana, mas, ao mesmo tempo, ficou de costas para a sua própria promessa de fazer da libertação do homem um programa de alcance universal. Enfim, uma civilização que, no dizer de Walter Benjamin (1974, p. 683, tradução e destaque próprias.), se movimenta em torno deum conceito de progresso que precisa ser fundamentado na catástrofe. Ou como escreve o filósofo alemão: "Que tudo continua ficando do jeito como está, é a catástrofe. Ela  não é o que vem. Ela é o que já existe."

 

Nos dias de hoje faz parte dos desdobramentos desta caminhada civilizatória o fato de que a naturalização do capitalismo global tem alcançado uma dimensão inédita, uma vez que, conforme SlavojZizek (2009), quase mais ninguém tem a coragem de nem sonhar com  possíveis alternativas ao vigente status quo.

 

Diante desta condição que, das mais diversas formas, afeta todos os cantos nesta sociedade planetária, é pertinente trazer à memória a seguinte colocação de Paulo Freire, educador de espírito inovador e revolucionário e, certamente, um dos mais proeminentes intelectuais latino-americanos do século XX:

 

"Não há amanhã sem projeto, sem sonho, sem utopia, sem esperança, sem o trabalho de criação e desenvolvimento de possibilidades que viabilizem a sua concretização. É neste sentido que tenho dito em diferentes ocasiões que sou esperançoso não por teimosia, mas por imperativo existencial."

 

No fundo, foi um sentimento categórico deste tipo que motivou os pesquisadores e técnicos do POEMA da UFPA de fazer uma análise aprofundada dos feitos e desfeitos de um Programa de Pesquisa de Ação que, criado em janeiro de 1992, apostou na possibilidade de poder contribuir para o enraizamento do conceito da  sustentabilida de entre os atores sociais e políticos do contexto regional, mas que, como os seus inúmeros fellow travellers nesta empreitada, não conseguiu aproximar as suas ideias à realidade da forma desejada.

 

O que fazer numa situação desta natureza?

 

--- Jogar a toalha e se contentar com análises  técnico-científicas sobre um ambientalismo irresponsável e até cínico que, desde a ECO 92, considerou a Amazônia como uma espécie de "fronteira experimental" (B. Becker)e estudou através de uma miríade de projetos pilotos opções de uso dos seus recursos naturais, mas acabou se despreocupando imperdoavelmente com a questão da aplicação generalizada dos seus achados no âmbito de uma região de dimensões continentais.

 

--- Ou ventilar a viabilização de uma iniciativa nova, baseada numa avaliação crítico-solidária das experiências acumuladas durante as duas décadas passadas?

 

Os protagonistas do POEMA resolveram de abraçar a segunda opção, criando com o Trópico em Movimento um programa interdisciplinar que aposta na implementação de um denso e operativo mutirão interinstitucional entre as entidades de ensino fundamental, médio, técnico/tecnológico e universitário em torno das potencialidades endógenas de desenvolvimento dos múltiplos espaços locais da Amazônia, procurando incentivar e ampliar, assim, o debate sobre a criação de uma civilização original da biomassa nos trópicos como insumo fundamental para se opor com afinco à maldição de um desenvolvimentismo mimético, que, infelizmente,  continua oprimindo os cérebros de uma enorme parcela dos protagonistas político-econômicos em todo o hemisfério Sul. 

 

Referências

Benjamin,W.:GesammelteSchriften Bd.1, SuhrkampTaschenbuch.Wissenschaft, Frankfurt amMain 1974 

Freire, P.: Pedagogia dos sonhos possíveis, Editora Unesp, São Paulo 2001    

Zizek, S.: Auf verlorenemPosten, Edition Suhrkamp Frankfurt/M 2009

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(091) 3201-7700

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