Como era o Saara antes de se tornar o maior deserto do planeta

William Márquez

O que hoje é o árido, quente e inóspito deserto do Saara, no norte da África, era uma região de savanas e pradarias com alguns bosques, lar de caçadores e coletores que viviam de vários animais e plantas, sustentados por lagos permanentes e muita chuva.

Era assim numa época entre 5 mil e 10 mil anos atrás - período conhecido como do "Saara verde" ou "Saara úmido".

É difícil imaginar que o maior deserto quente do mundo, que tem uma precipitação anual entre 35 e 100 milímetros de chuva, recebia chuvas 20 vezes mais intensas há alguns milhares de anos.

Os ventos das monções sazonais traziam intensas chuvas que mantinham a terra fértil.

Existem diferentes estudos que reconstituem o clima e a vegetação do Saara nos últimos 10 mil anos.

Um dos mais recentes, publicado em conjunto por pesquisadores da Universidade de Estocolmo, na Suécia, e das universidades de Columbia e do Arizona, nos Estados Unidos, analisou a sedimentação marinha no norte da África em busca de um padrão de chuvas.

O Sahel

"A precipitação anual no Saara Ocidental pode ter sido até 2 mil milímetros maior do que é hoje em dia, comvegetação parecida com a da atual região sul do Senegal", disse Francesco Pausata, climatologista da Universidade de Estocolmo e coautor do estudo.

O Senegal, na costa oeste da África, faz parte do Sahel, uma faixa de 500 a 700 km de largura, em média, e 5,4 mil km de extensão, protegida por um cinturão verde de flora altamente diversificada, que a protege dos ventos do Saara.

É uma zona de transição entre o deserto do Saara no norte e a savana sudanesa no sul, que se estende do oceano Atlântico até o mar Vermelho.

O Sahel atravessa a Gâmbia, o Senegal, a parte sul da Mauritânia, o centro do Mali, Burkina Faso, a parte sul da Argélia e do Níger, a parte norte da Nigéria e de Camarões, a parte central do Chade, o sul do Sudão, o norte do Sudão do Sul, a Eritreia, a Etiópia, o Djibuti e a Somália.

"Acredito que os animais que hoje em dia pastam no Sahel, como os gnus e as gazelas, possam ter vivido até no extremo norte do Saara Ocidental", disse Pausata.

"A parte oriental podia ser um pouco mais seca, mas com pastagens acima da região do paralelo 25 Norte (no norte da Mauritânia)."

Outros pesquisadores, porém, mencionam uma vegetação mais frondosa, com árvores e lagos onde viviam grandes animais.

"A evidência fóssil e de pólen é bastante clara", diz David McGee, professor do departamento de Ciências Atmosféricas, Planetárias e da Terra do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos.

O Saara verde

McGee compara essa vegetação do Saara verde com a do chamado ecossistema Serengeti (ou Serengueti), no norte da Tanzânia e sudoeste do Quênia.

O Serengeti abriga a maior migração animal de mamíferos do mundo. Na língua do povo massai, a palavra Serengit significa "planícies intermináveis".

"Havia no Saara corpos hídricos permanentes, savanas, pradarias e até alguns bosques", disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, o professor McGee, especialista em paleoclimatologia.

"Foram encontrados fósseis de grandes animais que hoje já não são vistos vivos no Saara. Crocodilos, elefantes e hipopótamos."

Assentamentos humanos antigos também deixaram evidências da existência de uma grande fauna, observou McGee.

"Vemos a arte rupestre representando girafas no meio do Saara. Ali também encontramos antigos anzois, o que sugere um estilo de vida profundamente diferente de como se viveria atualmente nesta parte do deserto."

Nos poucos e muito isolados corpos hídricos que ainda existem, há peixes das mesmas espécies, que não tiveram qualquer forma moderna de contato.

"Isso sugere que, no passado, existiam vias aquáticas que se comunicavam", acrescentou.

Embora seja muito difícil determinar a extensão dessa vegetação, o paleoclimatologista do MIT estima que o cenário descrito tenha se estendido muito ao norte do Saara, onde hoje estão as regiões centrais da Líbia, da Argélia e do Egito.

Publicado originalmente em: http://www.bbc.com/portuguese/geral-39374825

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