A imagem da mulher e a esquerda

Por Lincoln Secco.*

“Uma mulher tem o direito de subir ao cadafalso;ela deve ter também o de subir a uma tribuna.” Olympe de Gouges, Les droits de la femme et de la citoyenne

Marianne é o símbolo da Revolução Francesa. A Estátua da Liberdade é uma mulher. A República e a Nação são mulheres. Também a deusa da democracia. Os principais ícones que ainda sustentam os ideais de emancipação humana são femininos, entretanto as relações práticas das mulheres com os movimentos de esquerda nunca se deram em termos de igualdade. Proudhon, o teórico do anarquismo e da liberdade, acreditou, em seu Amour et mariage, na inferioridade da mulher. A Associação Internacional dos Trabalhadores, da qual Marx e Engels faziam parte, condenou o trabalho feminino para que as mulheres pudessem “ficar em casa”. Certamente, e como teremos oportunidade de ver, mulheres participaram sempre desses movimentos, fossem eles anarquistas, socialistas ou comunistas.

É verdade que a aristocracia setecentista nas regiões francesas podia ser acusada de muitas coisas, mas não por seu machismo2. Entretanto, a liberdade feminina era restrita às cortesãs e às mulheres de sangue nobre. Somente na Grande Revolução Francesa as mulheres esboçaram sua primeira forma de participação política coletiva. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão não se referiu às mulheres. E as Constituições da França monárquica ou republicana não lhes deram direitos (nem mesmo a Constituição de 1793, a mais democrática de todas).

Só às vésperas da República, depois de 1791, um “feminismo teórico”, na expressão de Elizabeth Roudinesco, ganhou força. Era o ano da crise, da guerra. Ano em que foi criada a Sociedade dos Amigos da Verdade4, primeiro clube feminino. O ano seguinte assistiria à fuga de Varennes e às dissensões que levariam ao 10 de Agosto, à vitória francesa em Valmy, à queda da monarquia e ao início do Ano I republicano (22 de setembro de 1792). No Ano II, a atriz de província Claire Lacombe (dita Rose Lacombe) e Pauline Léon animaram o segundo clube exclusivamente feminino da Revolução: o Clube das Cidadãs Republicanas Revolucionárias. Dominado pelo espírito enragé de homens como Leclerc e Jacques Roux, o clube representava a sans-culotterie feminina. Mas foi fechado pelo Comité de Salut Publique em 30 de setembro de 1793. Protegida pelos hébertistes, Lacombe só foi aprisionada em março do ano seguinte. Permaneceu presa até 17955.

Apesar desses antecedentes, o feminismo não se desenvolveu nem deixou rastros por muitos anos. Ele só recobraria ânimo depois de 1830, com o advento da Monarquia de Julho, de recorte liberal. O regime juste milieu não poderia manter as mulheres nas mesmas condições da Restauração. Ou poderia? Certamente, as mulheres mais militantes não concordaram com isso e fizeram suas demandas no bojo da nova ascensão das lutas revolucionárias dos anos 1830-1848. Foi nesses anos que a própria palavra começou a ser veiculada em francês. Féminisme apareceu por volta de 18376. Não por acaso foi nessa época que a palavra socialisme começou a ser utilizada, e Robert Owen asseverou que o grau de emancipação da mulher era a medida mais segura para mostrar o nível de emancipação humana. As experiências cooperativistas de Owen criaram os jardins-de-infância e promoveram as ideias de igualdade entre os sexos.

A nova fase despertada pelas revoluções, especialmente depois de 1848, viu surgir uma nova mulher naqueles meios mais militantes (não necessariamente operários). A mulher livre, que, segundo um dicionário de 1845, era aquela mulher que se desejava independente da lei e do poder do homem. Que pretendia os mesmos empregos que ele. E citava como as mais célebres mulheres livres aquelas da época da Revolução Francesa, como Catherine Théot e Olympe de Gouges7. Mas, em verdade, as mulheres militantes (do feminismo e/ou do socialismo) fizeram suas primeiras aparições públicas na Primavera dos Povos. Foi a mais notável geração de mulheres revolucionárias surgida até então.

Em geral, nasceram com a Revolução de Julho de 1830 e eram bem jovens em 1848, mas já em condições de participar ou compreender o fenômeno revolucionário. E se tornaram militantes maduras na época da Primeira Internacional e da Comuna de Paris. Esses marcos históricos fizeram dessa geração a mais importante na luta pela emancipação feminina. Favorecidas pela educação recebida e, muitas vezes, pela origem na classe média, elas optaram, sempre, por uma combinação de estudos das questões sociais com uma vida independente que exigia de algumas delas um extenuante trabalho físico para a garantia da sobrevivência. Afastadas de casamentos tradicionais, elas tiveram muitas dificuldades financeiras. A boa educação foi fator decisivo na evolução de todas elas. Nathalie Lemel (1827-1921) era filha do dono de um café e adquiriu boa instrução. Abriu, depois, uma livraria. Léodile Léo (1832-1900), que se tornaria conhecida assinando seus escritos como André Léo, era filha de um oficial da Marinha, o qual lhe concedeu excelente educação formal. Louise Michel (1830-1905), a mais célebre agitadora e escritora socialista, era filha do châtelain de Vroncourt, que lhe deu boa instrução. A mais jovem dessa geração, Pauline Mekarska Mink (1839-1901), conhecida como Paule Mink, era filha do conde Mekarski, participante da insurreição polonesa de 1830 e que se refugiara na França. Margherite Tinayre (1831-?) era filha de burgueses remediados e fez bons estudos.

Publicado originalmente em: https://blogdaboitempo.com.br/2015/03/04/a-imagem-da-mulher-e-a-esquerda/

Trópico em Movimento © 2016 - 2019.

Campus UFPA - Rua Augusto Corrêa, 01 - Casa do Poema,

Bairro Guamá, 66075-110, Belém, Brasil

(091) 3201-7700

  • Wix Facebook page
  • Wix Twitter page
  • Wix Google+ page