Saúde precária nas cidades sem acesso rodoviário no Amazonas desafia próximos prefeitos

Luke Parry, Patricia Torres, Andre de Moraes e Jesem Orellana. Especial para a BBC Brasil*

De cada três cidades do Amazonas, duas não têm acesso rodoviário, e a qualidade dos serviços de saúde é baixa. Grandes distâncias, corrupção, baixa qualificação e oferta profissional são alguns dos problemas discutidos em períodos eleitorais, mas com pouco aprofundamento e expectativas limitadas de melhorias.

Quando pensamos em saúde precária no Brasil, normalmente imaginamos filas enormes nas unidades de saúde e hospitais públicos lotados. Mas nas cidades ribeirinhas do Amazonas, sem acesso rodoviário, o desafio é muito maior.

Os próximos prefeitos terão que enfrentar problemas que vão além da infraestrutura de atenção à saúde. Combate à corrupção e investimentos em serviços essenciais, como saneamento básico e ambiental, são iniciativas urgentes.

E há a questão logística. São dias, e às vezes semanas, de viagem fluvial dessas cidades até a capital, Manaus. As secretarias de Saúde das cidades têm que atender uma população de ribeirinhos e indígenas que muitas vezes moram a dias da sede do município.

Mas como são as cidades amazônicas sem acesso por rodovias?

Apesar da pouca atenção que recebem, esses municípios somam 43 dos 62 do Estado, com população total de mais de 1 milhão de pessoas. Dessas, 641 mil estão nas cidades e 488 mil na zona rural. O transporte é essencialmente fluvial e as viagens, normalmente longas.

Cidades remotas

Ipixuna é uma das cidades mais remotas do Amazonas e do Brasil. Situada no Rio Juruá, fica a 2,8 mil km de barco da capital.

Balsas que transportam itens de consumo básicos, como gás, combustível e mesmo alimentos não perecíveis para a merenda escolar, podem levar mais de um mês entre Ipixuna e Manaus, durante o período de seca dos rios.

Ipixuna, como a maioria das cidades amazônicas sem acesso rodoviário, é extremamente pobre e desigual. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município está muito abaixo da média nacional, equiparável ao de países africanos como Uganda, que ocupa a 165ª posição no mundo.

Como agravante, esses municípios têm enfrentado, nos últimos anos, choques climáticos - variações cada vez mais frequentes e severas dos níveis dos rios. Essas mudanças têm superado a capacidade de adaptação a essas variações naturais.

Caapiranga - outro município sem acesso rodoviário, mas bem mais próximo à capital -, enfrentou sua maior cheia e sua maior seca em 2015, segundo os moradores. A enchente cobriu boa parte da área urbana em maio. Durante a seca, em outubro, já era impossível chegar ao porto da cidade.

Nesta semana o Juruá, principal rio que abastece Ipixuna, atingiu sua cota mais baixa já registrada.

Floresta de pé

Por outro lado, essas cidades têm uma enorme importância sociocultural, histórica e para o meio ambiente. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que esses 43 municípios têm uma incrível quantidade da floresta em pé. São quase 1 milhão de quilômetros quadrados cobertos com floresta amazônica - mais do que a área inteira da região Sudeste do Brasil.

Ipixuna tem 98% de sua floresta conservada. O município abriga ao menos três grupos indígenas e dezenas de comunidades ribeirinhas, com amplo conhecimento e dependência dos recursos naturais.

"Eu não vou pra cidade porque lá a gente depende de dinheiro para sobreviver e aqui não, no mínimo temos a comida", conta um ribeirinho morador do Rio da Liberdade.

Apesar das riquezas naturais e culturais e da hospitalidade de sua população, a grande maioria desses municípios não explora o seu potencial turístico.

Desafios da saúde

A saúde é um direito constitucional assegurado aos brasileiros por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), que é universal e gratuito. O objetivo 3 da agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável reflete não só os desafios necessários para "Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos", mas o papel estratégico dos futuros prefeitos para reforçar a posição brasileira de melhorar boa parte dos indicadores de mortalidade e adoecimento evitável.

Dados do Ministério da Saúde colocam o Amazonas como um dos Estados com menor esperança de vida ao nascer (70 anos) em 2012.

Adicionalmente, em 2010, apresentou um dos mais baixos índices de médico por habitante do país (1,07 por mil habitantes). Tais dados evidenciam que as condições de vida e saúde nesses municípios sejam ainda piores e mais desafiadoras.

Ipixuna registrou, em 2014, taxa de mortalidade infantil de 37 óbitos por mil nascidos vivos. Mais do que o dobro da média nacional (17) no mesmo ano. As causas, em grande parte, podem estar associadas a problemas de saúde evitáveis, como diarreia, pneumonia e desnutrição.

A melhoria desses indicadores também passa por ações de saneamento básico e ambiental que costumeiramente são desvalorizadas. Apesar do saneamento ser essencial para a prevenção de doenças de veiculação hídrica, mais de 60% dos municípios do Estado não tratam a água que abastece os domicílios. Cerca de 30% sequer têm gestão dos serviços de água.

É o que acontece em Caapiranga, onde a população usa água proveniente de poços privados ou comunitários.

Publicado originalmente me: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37491145

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