Lua em Sagitário leva às telas a questão agrária

POR JOÃO PERES

Primeiro longa de ficção de Marcia Paraiso investe em narrativa política mas evita armadilha das verdades definitivas, ao abordar temas que movimentos sociais veem com certo preconceito

Por João Peres, Moriti Neto e Thiago Domenici, da Agência Página Três

Surgido da vontade de fazer um filme para o público jovem que abordasse a questão agrária, o longa Lua em Sagitário, que estreou no último dia 8 de setembro em Florianópolis (SC) e estreia esta semana, dia 15, nos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro, traz temas reincidentes nos projetos da diretora Marcia Paraiso: a disputa pela terra e o preconceito como elementos resultantes da intensa luta de classes que atravessa a história do Brasil.

Dessa vez, no entanto, o trabalho da diretora, premiado no Festival de Avanca, em Portugal, no fim de julho com uma menção honrosa e o prêmio de melhor atriz para Manuela Campagna, chega com uma diferença importante: se antes Marcia utilizava fundamentalmente a abordagem documental, agora ela transpõe barreiras estéticas e salta para a ficção, num movimento que a própria autora classifica como de ruptura, em busca de superar as muitas restrições ao alcance do gênero documentário e tratar o preconceito contra os jovens que não vivem nos grandes centros urbanos pelas lentes do romance. É nesse contexto que a trama se desenvolve, tendo como eixos as rotinas de dois jovens que passam longe dos padrões veiculados pela mídia de massas.

Ana (Manuela Campagna) é uma garota que vive em Princesa, uma cidade de cinco mil habitantes no interior de Santa Catarina. Filha única de família tradicional, ela não se identifica com os hábitos da sociedade local, o que a faz ter poucos amigos e sonhar com experiências em terras distantes, como a ida a um festival de rock em Florianópolis. O outro protagonista é Murilo (Fagundes Emanuel), um rapaz nascido e formado no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e que mora num assentamento em Dionísio Cerqueira, divisa com a Argentina.

Justamente por uma linha que expõe diferenças, desde as divisões socioeconômicas, passando por conflitos geracionais, até a oposição entre o racionalismo de Ana e o gosto por astrologia de Murilo (o que inspirou o nome do filme), é que Lua em Sagitário traça um percurso de referências e discursos políticos contra o preconceito, mas sem perder de vista o frescor de uma linguagem jovem. A narrativa cresce com a evolução da temática da questão agrária como pano de fundo para diversas cenas que envolvem os jovens, mas sem cair na armadilha de produzir uma fala verticalizada que pretenda impor verdades definitivas.

Aliás, sobre o filme chegar num momento de intensa disputa política no país, a diretora lembra a complexidade histórica em falar sobre reforma agrária no Brasil. “Isso é complicado, muitas pessoas sempre vão torcer o nariz. Mas eu vejo que é um momento, talvez, em que a gente está conseguindo ganhar uma nova geração. O positivo é que tem uma juventude aí que ocupa escolas, que está se posicionando com pensamento critico. É com essa galera que eu quero falar”, enfatiza.

Publicado originalmente em: http://outraspalavras.net/destaques/lua-em-sagitario-leva-ao-a-questao-agraria/

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