Da tragédia à comédia

Um comentário sobre "Três dimensões da tragédia da esquerda no início do século XXI", de Edemilson Paraná

Um grande mérito da contribuição de Edemilson Paraná publicada aqui no Blog da Boitempo foi ter abordado as “três dimensões da tragédia da esquerda” a partir de categorias e métodos de análise elaborados pela própria esquerda, focando na “prática cotidiana das esquerdas nos espaços de luta política em que habita”. A famosa frase de Marx de que “a humanidade só se coloca problemas que é capaz de resolver” poderia ser relida nessa mesma chave: talvez o aspecto realmente central dessa formulação seja que a superação de um obstáculo externo a um dado sistema dependa de sua reconstrução como um objeto dentro desse mesmo sistema. Afinal, até hoje quem melhor “resolveu” os problemas do capitalismo foi o próprio capitalismo: e não apenas por se mostrar plástico o suficiente para lidar com seus próprios limites históricos, mas porque mesmo soluções mais progressistas para problemas formulados pelo capitalismo permanecem compatíveis com esse sistema. Talvez haja uma espécie de epistemologia política a ser extraída dessa citação do Marx: o capitalismo resolve problemas capitalistas – uma alternativa não-capitalista deveria, pensando assim, buscar formular dentro de seu próprio campo os problemas que gostaria de solucionar.

 

Portanto, tomar os problemas da esquerda como objeto de investigação não deveria tanto significar fazer um balanço de vitórias e derrotas no confronto com um adversário – ainda que isso também precise ser feito num segundo momento – mas principalmente disputar o “controle dos meios de produção de problemas”, para que a formulação dos nossos obstáculos faça uso da mesma trama conceitual que queremos usar para tecer nossos próximos passos. É nesse sentido que entendo o mérito de recortarmos a situação da esquerda atual do ponto de vista da “prática cotidiana”, isto é, do ponto de vista do posicionamento concreto de diferentes tendências em relação às esferas da vida econômica e política que buscam afetar. E de fazê-lo com suficiente rigor para, uma vez escolhido esse objeto de análise, submetê-lo a um estudo que diferencie esses “tipos ideais” de suas diferentes misturas em casos concretos e que mapeie cada “corrente” como a imbricação de diferentes níveis – se nesse caso, até por restrições de espaço, Paraná se restringe aos níveis “ideológico, epistemológico e político”. O importante é que essas são ferramentas de análise que nós aplicaríamos à crítica de nossos adversários políticos e às “análises concretas de situações concretas” alheias a nossa própria composição política – nada mais correto, portanto, do que aplicar a nós mesmos o rigor crítico que aplicamos ao resto do mundo.

 

Segue-se, então, a caracterização das “três grandes forças de gravitação” responsáveis pela composição das diferentes correntes da esquerda atual – para simplificar: a esquerda parlamentar, a esquerda tradicional e a esquerda fragmentária.

 

O que salta à vista logo de saída é que cada uma parece se articular a partir de um pólo diferente do complexo social: a esquerda parlamentar organiza-se em torno do Estado, a esquerda tradicional, ou radical, em torno do Capital e a esquerda fragmentária orienta-se pela Cultura. Assim, Paraná aponta como a primeira “encontra centralmente no Estado a razão e causa maior do poder”, a segunda mantém “seu caráter anti-capitalista” e a terceira “dá precedência à dimensão ético-comportamental”. E sugere também que é a partir dessas diferentes interpretações do “ponto sintomal” da estrutura social que cada tendência da esquerda articula seus aspectos ideológicos (sua teoria do poder), epistemológicos (sua análise crítica da realidade) e políticos (suas formas de organização e suas pautas). É certamente uma boa caracterização da maneira como a tragédia da esquerda aparece para nós hoje, que oferece um panorama bastante útil para a descrição e distinção das organizações e movimentos políticos atuais. Mas acredito que é possível encontrar um fio solto aqui e que, se puxado, poderia colocar muitos aspectos desse mapeamento em questão. Vou introduzí-lo a partir das metáforas que o próprio texto utiliza.

 

Primeiro, o problema da tragédia. É importante lembrar que o gênero trágico não é apenas aquele que foca nos infortúnios ou nas limitações da humanidade, mas antes uma forma de dramatização em que o infinito, ou o mais-além, coincide com a finitude ou a limitação. Édipo não só quer escapar de seu destino, como a princípio consegue – vai mais além – mas “encontra seu destino na estrada que tomou para evitá-lo”: é seu sucesso em escapar do oráculo que realiza a profecia do oráculo, e portanto seu fracasso. A grande tragédia nunca é só a tragédia de fracassar e não conseguir o que a gente quer, mas acima de tudo a tragédia de conseguir o queremos e mesmo assim fracassar. Nesse sentido, talvez fosse interessante não entender o destino trágico da esquerda atual como um fracasso em “reter as virtudes e descartar os vícios” de cada vertente, tragédia portanto de superar a fragmentação, mas como a tragédia ainda mais impiedosa de que, em sua desconexão, a esquerda atual já está conectada – uma dinâmica em que as deficiências de cada corrente alimentam as certezas e funcionamento das demais.

 

De fato, falta no mapeamento proposto por Paraná uma análise da interação entre essas diferentes esquerdas. O que nos leva à segunda metáfora utilizada, a das “forças de gravitação”. Em física, grandes corpos celestes exercem força gravitacional sobre outros menores, mas também exercem força entre si: a organização de um sistema planetário é condicionada pelo equilíbrio entre corpos que se atraem mutuamente, de modo que se a gente tivesse um sistema com três planetas, cada um com várias luas (lutas?) em órbita, teríamos ainda que considerar a influência de um planeta sobre os demais, e de cada um dos demais sobre os outros, etc. E é do ponto de vista dessa interação que eu gostaria de retomar ao panorama proposto em Três dimensões da tragédia da esquerda.

 

Considerando essa dimensão da análise, vemos que algumas das características de cada uma das tendências da esquerda não parecem decorrer diretamente da lógica de cada um desses “atratores” sociais fundamentais – Estado, Capital, Cultura – mas sim da insistência, comum a todas as correntes, de subsumir as outras duas forças sob uma terceira. A esquerda parlamentar acreditando na capacidade da reforma do Estado de resolver as contradições do Capital e das comunidades, a esquerda tradicional acreditando que a mudança sistêmica anti-capitalista altera por si só as contradições na “superestrutura” estatal e cultural e a esquerda fragmentária apostando que a transformação ética e estética da vida cultural bloqueia e subverte as dimensões institucionais do Estado e do Capital. Trata-se de um ponto em comum entre elas, e que nos permite, assim, pensar a conjuntura da esquerda como um complexo organizado e estruturado, com propriedades globais irredutíveis a cada uma de suas partes.

 

Ideologicamente, esse complexo parece se sustentar a partir da crença de que há uma dimensão da vida social que tem o potencial de resolver as contradições das demais esferas da sociedade. Seja o esquema de transformação social baseado no gradualismo, no modelo insurrecional ou em táticas de resistência e subversão, podemos reconhecer essa mesma propriedade geral. De um lado, ela aparece como a tendência analítica de reduzir os outros modelos de transformação a formas mistificadas de reprodução e manutenção da realidade social vigente. Por outro, como uma ignorância sistemática dos efeitos de seu próprio modelo de atividade e prática sobre as outras esferas da vida social e política, de modo que a emergência de novas ou mais acirradas contradições costuma ser entendida como efeito de uma reação por parte dos adversários políticos, ou de uma incompreensão das massas, e nunca como efeito colateral de um movimento da própria esquerda.

 

Epistemologicamente, há também um curioso efeito de “feedback” nesse sistema, uma vez que o déficit ideológico descrito acima leva cada uma das correntes da esquerda atual à fracassar naquilo que almejam realizar, fracassos esses que servem no entanto de prova verificável para as demais tendências de que cada uma delas está correta em seu posicionamento e análise da realidade. A esquerda parlamentar se reforça cada vez que, ciente do papel do Estado na organização social, observa como a desconfiança do jogo eleitoral – por parte da esquerda tradicional – e a crítica das instituições – por parte da esquerda fragmentária – acabam por preservar a máquina estatal na mão dos mesmos interesses contra os quais essas duas correntes se organizam em suas denúncias. A esquerda tradicional, por sua vez, também encontra-se justificada em seu puritanismo ou em seu apego às expectativas revolucionárias quando assiste de camarote à implementação de políticas públicas impopulares por parte de governos de esquerda e a inépcia dos movimentos identitários em compor forças políticas para além de seus condomínios. E a esquerda fragmentária, finalmente, ganha ainda mais legitimação ao reconhecer um mesmo impasse subjacente tanto à esquerda parlamentar quanto à esquerda tradicional: por baixo do debate sobre “reforma ou revolução” – em que essas duas se degladiam eternamente – reconhece a recusa, comum a ambas, de pensar uma política que não dependa de uma força cega de normativização e uniformização das culturas e dos corpos. E enquanto existe esse ponto cego comum, a esquerda fragmentária encontra ali o seu objeto de crítica e seu lugar.

 

O mais importante, no entanto, é o aspecto político, pois é esse que revela o caráter efetivamente trágico da situação. Trágico no sentido proposto acima: há certamente um fracasso da esquerda, mas é um fracasso dentro do qual se realizou aquilo que almejávamos. Pois há uma unidade complexa nessas partes dispersas, uma espécie de trâmite organizacional entre partidos com potencial de disputa do Estado, pequenas organizações radicais e movimentos sociais identitários, onde o militante que toca na contradição interna de um desses componentes encontra alívio e poder crítico em outro deles – ignorante do fato de que a constituição ideológica, epistêmica e política desse outro pólo é parte do problema que garante a existência e a não-resolução da contradição que o incomodou, em sua organização anterior.

 

Publicado originalmente em: https://blogdaboitempo.com.br/2017/07/04/da-tragedia-a-comedia/

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