POR DENTRO DA DESTRUIÇÃO SECRETA DA GRANDE SAVANA DO BRASIL

Durante décadas e enquanto ninguém estava olhando, metade da savana mais rica do mundo foi desmatada. O EL PAÍS viaja para seus cantos mais profundos

TEXTO: TOM C. AVENDAÑO / FOTO: FELIPE FITTIPALDI

A cachoeira do Macapá não está exatamente à mão, mas é assim que tem que ser, na opinião dos integrantes desta comunidade de pequenos proprietários no Nordeste do Brasil. Para que um forasteiro venha até aqui, precisa chegar ao aeroporto mais próximo, o de Imperatriz, no sul do Maranhão, seguir 400 quilômetros por estrada até Balsas, uma cidade de 90.000 habitantes e três concessionárias de tratores, e dali conseguir transporte para percorrer por duas horas estradas de terra. Quando a paisagem muda de uma mancha alaranjada para um borrão de árvores nuas, é preciso passar por três pontes de madeira, a escola que o Governo prometeu e deixou na metade da obra e, sobretudo, o enorme cadeado que tranca a propriedade de dona Raimundinha.

“Meu Deus do céu, que susto”, exclama atropeladamente esta pilhade nervos de um metro e vinte, 59 anos e incontáveis rugas, enquanto abre a porteira. E insiste no caminho a casa dela. “De vez em quando vem gente de fora e não sabemos se são da hidrelétrica. Ai, não podem vir aqui, meu Deus do Céu”.

Como quase todo mundo na comunidade do Macapá, dona Raimundinha vive com a família e seus animais: os primeiros em uma casa de paredes de barro e telhado de palha, os outros, livres pelo terreno arenoso e ermo que está há décadas nas mãos da sua família. E nela quer continuar, segundo conta, embora inquieta, agitando-se em sua sala, pela qual desfilam alguns pintinhos com a galinha mãe. “Isto era do meu pai, que morreu, e a deu a meu irmão, que morreu. Eu chorei suas mortes, para que depois chegue alguém e me expulse. Sem dinheiro nem lugar para onde ir, meu Deus do céu.” Cobre o rosto com as mãos.

Também como quase todo mundo do Macapá, dona Raimundinha vive sob uma ameaça invisível. Uma empresa elétrica tem um plano para gerar energia com a cachoeira: em troca, teriam que expropriar as 70 famílias que moram lá. Elas praticamente nunca puseram o pé para fora das próprias terras. Mudar-se seria mais que traumático, seria uma perda de tudo o que é mundo para eles. O ponto-chave é não deixar que se aproximem da cachoeira para fazerem estudos de viabilidade, e o único caminho fácil é o desta propriedade. Aí a importância do cadeado de dona Raimundinha.

E aqui está ela, feito uma guardiã de conto de fadas com seu coque e sua ansiedade, controlando o mundo no meio do nada, sem nada mais a fazer senão dar um salto quando escuta um carro. Diz que nunca baixa a guarda. Que a ameaça da hidroelétrica consome sua vida. “Os da cidade vivem muito bem enquanto nós vamos na labuta de uma geração a outra, nunca lhes fazemos nada, nos criamos com o suor de nossos braços. Por que não podem nos deixar em paz? Meu Deus do céu”, volta a se lamentar, enterrando de novo o rosto entre as mãos.

“É o que dizem meus vizinhos, o que diz o padre. Que não podemos baixar a guarda, que temos de lutar”, gagueja. “E fazemos isso. É tudo o que fazemos. Até que se rendam. Ou até que... Meu Deus do céu...”

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O Brasil costuma evocar a imagem de praia ou floresta, mas tem uma savana de dois milhões de quilômetros quadrados. O chamado Cerrado é como uma faixa que divide o maior país da América Latina pela metade: começa no Maranhão, ao norte, e vai descendo em diagonal ao longo de oito Estados até a fronteira com o Paraguai, no Mato Grosso. Separa o clima tropical e as florestas do Norte da Mata Atlântica e das cidades do Sudeste e do Sul. O que há no centro é savana pura. Quilômetros e quilômetros de sol, poeira e monotonia interrompida apenas por plantações gigantescas da agroindústria. Há tantas que se poderia pensar que se está nas planícies do Missouri. Faz tanto calor que parece Timbuctu. E, no entanto, neste mundo sépia e áspero está ocorrendo um dos maiores atentados à biodiversidade do planeta.

O Cerrado tem mais de 12.500 espécies de plantas, das quais mais de 7.300 só podem ser encontradas aqui. Abriga mil espécies de peixes e mais de 250 mamíferos: delas, 18 são autóctones. É a savana mais rica do mundo. E, então vêm as outras cifras, as preocupantes. Desde 1970, 47% desse bioma foi devastado. Somente em 2015, último ano com dados disponíveis, foram devastados 9.483 quilômetros quadrados. Para efeito de comparação, nesse mesmo ano a comunidade científica se indignou porque o desmatamento na Amazônia havia disparado, chegando a 6.207 quilômetros quadrados. O Cerrado é a verdadeira tragédia ambiental brasileira.

Também é a menos conhecida: o dado de 2015 é dos poucos revelados pelo Governo brasileiro. Apareceu um dia em julho passado no site do Ministério do Meio Ambiente. Estava escondido dentro de uma série de gráficos que festejavam as novas formas de monitorar a natureza.

Como é possível manter um segredo dessas dimensões? “Creio que é uma questão arraigada na sociedade brasileira”, diz David M. Lapola, pesquisador de mudanças ambientais na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). ‘Talvez porque o Cerrado tem uma vegetação menos exuberante que a Amazônia. Talvez porque a mídia só cubra assuntos relacionados com a Amazônia ou a Mata Atlântica. Talvez seja porque não há grandes mamíferos como nas savanas africanas. Mas quando se fez a Constituição brasileira [em 1988], a Amazônia e outros biomas foram considerados patrimônio nacional. O Cerrado, não.” Maurício Voivodic, presidente da WWF Brasil, recorda: “A Amazônia despertou grande interesse mundial entre Governos estrangeiros e artistas sobre a importância da conservação. O Cerrado, porém, é um caso de enorme desatenção”. (Mas existe uma petição online para o Congreso brasileiro transformar o bioma em patrimônio nacional).

Apenas 3% do Cerrado está protegido, segundo a revista Nature Ecology and Evolution. No ritmo em que se está devastando esse espaço, e com a quantidade de espécies que contém, em 2050 terão desaparecido da face da Terra 1.140 de suas plantas endêmicas. De 1500, quando se começou a registrar a população de plantas do mundo, até agora, foram extintas 139. “O Cerrado é um hotspot de biodiversidade, e o quinto que mais perdeu espécies”, alerta Tim Newbold, que publicou um artigo sobre o tema na Science em 2016.

Como ocorre na propriedade de dona Raimundinha, o Cerrado se transformou em um solo muito apetitoso para a agroindústria, que já controla mais de 75% das terras cultiváveis do Brasil. E, ao contrário de dona Raimundinha, os pequenos proprietários têm cedido às pressões para vender a preço vil seus 25%. “Mas se você vai a Minas Gerais ou a Goiás, vê que os que partiram não ficaram melhor”, assegura um vizinho de Raimundinha, Tancredo, com certa despreocupação. Alto, magro, 51 anos, sem camisa e com chapéu de boiadeiro. Está sentado sob uma árvore em sua propriedade: 38 hectares de poeira, pomares e galos que circulam livremente entre os humanos. Uma casa de barro e um poço feitos por ele mesmo. Aqui vive com a mulher e aqui criou os três filhos. Comem do que plantam.

Publicado em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/21/politica/1521648714_928895.html

 

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