Entre a academia e a política: olhares sobre Melgaço

 

 

 

Ao observar o ano de 2016, com uma grave crise política que levou ao impeachment da presidente da república, Dilma Rousseff, e as eleições para prefeitos e vereadores em todo o país, o Programa Interdisciplinar Trópico em Movimento, conversou com professores/pesquisadores que tentaram contribuir com o campo da política e assim aproximar o que é debatido nas Universidades com o desafio da gestão pública no Brasil. O primeiro deles é o professor Dr. Agenor Sarraf Pacheco, ex-secretário de educação de Melgaço, no Marajó das Florestas, professor da Universidade Federal do Pará e candidato a prefeito do município este ano.

Com uma população estimada em 26.652 mil habitantes, Melgaço, localizado no Arquipélago de Marajó, no Pará, em 2013, tinha o pior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) do país. Pensar em mecanismos na gestão pública municipal para reverter esse quadro é uma tarefa complicada, mas que o professor Agenor Sarraf chamou para si ao se candidatar à prefeitura do município.

“Eu venho de uma trajetória de vida em que a minha família se envolveu na política. Os Sarraf Pacheco casaram, em Melgaço, com uma família chamada Viegas e minhas irmãs casaram com pessoas envolvidas no campo da política. Um dos meus cunhados foi vereador na cidade e candidato a prefeito três vezes. A primeira vez ele perdeu e nas duas últimas ele ganhou. Foi prefeito por oito anos”, explica Agenor Sarraf.

No primeiro mandato do prefeito José Maria Rodrigues Viegas, popularmente conhecido como Zequinha Viegas, o professor Agenor foi secretário de educação e teve sua primeira experiência no campo da gestão pública, mas “sempre fui uma pessoa que era muito crítica às concepções da política local, por ser meu cunhado, eu sempre tentava colocar o cabresto no prefeito de modo que pudéssemos ajudar Melgaço da melhor maneira possível e não sujarmos os nossos nomes. Sempre primei pela ética, honestidade, jogo limpo, pela escuta dos moradores, pela defesa dos direitos humanos e, muitas vezes, as pessoas que faziam parte desse grupo, que eu também integrava, destoavam de minha concepção. Mas como eu era um professor, tinha o respeito da maioria e consegui de certa maneira levar adiante aquilo que eu considerava mais sensato”, afirmou.

Partindo da concepção de política como a arte do bem comum, ou seja, ações e benefícios que devem ser compartilhados por várias pessoas pertencentes a uma determinada comunidade, o professor de História, se posiciona em defesa de um caminho político alternativo para Melgaço e para o Marajó. “Eu posso dizer que o meu interesse em politica partidária, na verdade, nasceu com a minha atuação em movimentos estudantis, de jovens, estudante secundarista e do ensino superior. Estudando a história do Brasil e do mundo e a luta dos trabalhadores, vi as relações de poder e desigualdades que orientavam a vida em sociedade. A luta de distintos sujeitos por direitos humanos me fez também ter a sensibilidade de batalhar em defesa daqueles que, historicamente, foram esquecidos, invisibilizados pelos poderes constituídos”.

Importância da formação acadêmica – Para Sarraf a formação acadêmica dá a oportunidade de compreender melhor como é o funcionamento das instituições e, ao mesmo tempo, acompanhar a história das lutas pelos direitos, garantidos nas legislações do país.  O pesquisador acredita que “homem, mulher, acadêmicos, universitários, podem, sim, ter postura diferenciadas frente à gestão pública”. Se forem pessoas de boa índole, farão a diferença na condução das responsabilidades governamentais.

Para que o(a) professor(a)/pesquisador(a) possa fazer a diferença no mundo político é necessário aliar duas características. A primeira é o conhecimento teórico-técnico e prático da gestão pública e o segundo é ter uma postura humana, ética, honesta, em defesa do outro, de responsabilidade com o recurso público para garantir a universalização dos direitos sociais.

“Historicamente, a gente tem acompanhado que nem sempre aquele que tem formação acadêmica é o melhor gestor. Defendo a proposta de que esses dois universos precisam estar imbricados: o universo da formação acadêmica e da administração pública. No entanto, temos acompanhando trajetórias de intelectuais que entram na vida pública como uma oportunidade para se dar bem ou para beneficiar apenas a um determinado grupo, esse desejo fere o princípio maior da política que é a luta do bem comum. Tal opção coloca em xeque toda sua formação humana e acadêmica. Minha compreensão é que uma pessoa formada, com experiência na área da gestão pública tem melhores condições para conduzir a administração de um município”, disparou o professor.

Eleições 2016 – Quando foi secretário de educação em Melgaço, Agenor Sarraf contribuiu para fazer avançar a política educacional no município com a criação de um programa de formação continuada de professores, dentro do qual foi implantada a 1ª turma de Licenciatura Plena em Formação de Professores pela Universidade do Estado do Pará. Junto disso, realizou a informatização da secretaria de educação e sistematização de dados estatísticos da rede municipal; implantação do Projeto “Janelas para o Saber: o ensino de 5ª a 8ª séries no espaço rural; implantação do programa do Transporte Escolar; coordenou a elaboração de uma proposta curricular regionalizada em respeito à diversidade e à valorização dos ecossistemas locais; além de ter estimulado à confecção de materiais didáticos alternativos para tornar as aulas mais criativas e atraentes.

“Depois dessa experiência, mergulhei na formação acadêmica, mas sempre estive por perto, olhando criticamente as tramas do mundo da política partidária. Muitas pessoas me perguntavam por que eu não me candidatava a prefeito. Eu sempre respondia: a minha hora ainda não chegou. Contudo, percebia que era preciso me envolver mais com aquele município, contribuir de maneira mais decisiva para mudar a realidade, especialmente enfrentar o baixo IDH, sentia que o amor e compromisso por Melgaço e seus moradores me chamavam. Então, eu aceitei o desafio, que foi lançado por um grupo político que eu havia apoiado em 2012, cuja liderança estava nas mãos do prefeito Adiel Moura, o qual estava completando seu segundo mandato à frente de Melgaço. Por ser estudioso e defensor da cultura negra, afroindígena, popular, o conhecimento, a amizade e as parcerias estabelecidas com aquele prefeito negro, o primeiro da história do município, quando conseguimos implantar, com o apoio da Universidade Federal do Pará, um Núcleo do PARFOR que está formando 200 professores da região a nível de licenciatura plena e a conquista de turmas flexibilizadas do Campus de Breves nas áreas de Ciências Naturais e Serviço Social, fez eu conhecer qualidades raras em um gestor público com pouca escolaridade no Marajó. Apesar das muitas dificuldades que municípios pobres, como Melgaço, sem arrecadação própria, enfrentam, ver um administrador responsável, sério e lutando para ser transparente e justo no trato com a coisa pública, para mim merecia confiança e aplausos. Então aceitei o convite para a candidatura com o projeto de, sendo eleito, sucedê-lo e dar continuidade nas boas ações em curso e fazer o município avançar em outras políticas públicas de direitos, com equidade e participação social”, explicou Agenor.

Um dos fatores que mais preocupou o então candidato a prefeito e sua equipe foi o alto índice de desemprego no município, “ao ouvir a população da cidade e do interior eu fui compreendendo que era preciso a gestão pública oportunizar aos moradores realizarem cursos técnicos profissionalizantes que atingem diferentes públicos como pais e mães de família, jovens que pararam de estudar ou que só tinha concluído o Ensino Médio e por isso estavam desempregados”. A oferta de cursos em diferentes áreas, mas especialmente, voltados à vocação e realidade local ou aos interesses da vida na cidade, onde há carência de serviços urbanos, assim como capazes de valorizar à potencialidade da vida na floresta, fazem, segundo Sarraf, acreditar na criação de oportunidades para a emancipação humana.

Candidato pelo Partido Popular Socialista (PPS) Agenor Sarraf, junto com seu grupo político, durante a pré-campanha, criaram um movimento chamado “Vozes de Rios e Ruas”, que pretendia escutar os moradores da cidade, especialmente das zonas periféricas, e do interior dos diversos rios. O objetivo era primeiro conhecer as histórias de vida desses agentes sociais marajoaras, os problemas que eles enfrentavam e as expectativas que eles tinham no que diz respeito aos modos de viver. Os dados levantados geraram um diagnóstico que permitiu compreender que era necessário entre as muitas propostas voltadas para o campo da saúde, da educação, da segurança pública, da infraestrutura, um programa de geração de emprego e renda.

Junto com o professor Agenor, quase 5.000 eleitores acreditaram que aquele projeto político seria vitorioso, pois estava apoiado pelo bom trabalho do prefeito em finalização de sua gestão, a boa aceitação de sua candidatura, os projetos apresentados na cidade e no interior. Todavia, o prefeito eleito foi Tica Viegas, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) com 6.892 votos, o qual havia sido derrotado na eleição anterior pelo prefeito Adiel Moura.

Cenário político brasileiro e local – Para Agenor Sarraf, o cenário político brasileiro hoje é incerto, no que diz respeito à gestão pública, “penso que, nos últimos doze anos, avançamos na política pública de direitos, mas ao mesmo tempo, muitos dos nossos políticos de esquerda se corromperam, deixaram de lado o discurso em defesa da justiça, dos direitos humanos e passaram a olhar o seu beneficio próprio”.

Um exemplo claro do enfraquecimento do discurso em prol dos menos favorecidos é o fim da Secretaria dos Direitos Humanos no Governo Federal. Esses problemas que estão assolando o Estado brasileiro refletem diretamente em municípios pobres, como Melgaço, que já começaram a sofrer com cortes nos repasses de verbas.

“Não por acaso hoje, muito municípios marajoaras estão com os salários de seus funcionários atrasados, porque os prefeitos não estão conseguindo pagar. O ICMS caiu muito do Estado e os prefeitos estão pedindo socorro para salvar as suas administrações”. Nesse sentido, “a sociedade civil, mais do que nunca, vai ter que se unir e lutar para que uma concepção de direita, reacionária, não venha se instalar duradouramente no comando da nação e dos municípios”, pontuou Sarraf.

O contexto marajoara não é menos preocupante, “a gente ainda precisa avançar bastante, os poderes econômicos locais comandam os poderes públicos e políticos e a sociedade civil precisa se organizar para enfrentar, combater e lutar, de diferentes formas para que as políticas de educação, saúde, segurança, geração de emprego e renda, infraestrutura, meio ambiente, defesa dos direitos humanos, sejam sempre as principais pautas das administrações”, concluiu.

Formação - Agenor Sarraf Pacheco nasceu em 1974, no rio Jaí, espaço rural do município de Breves. Migrou em 1983 para Melgaço. Cursou licenciatura e bacharelado em História no Campus da Universidade Federal do Pará em Breves, pelo projeto de interiorização. Depois fez especialização na área de Elaboração de Projetos Sociais, na PUC de Minas Gerais.  Ao concluir a graduação e a especialização, começou a pesquisar a história da cidade de Melgaço, a partir do campo da memória, colocando-se a escuta de histórias de vidas dos seus moradores mais antigos. Em 2001 foi aprovado no mestrado do Programa de Pós-Graduação em História Social da PUC-SP e entre 2005 A 2009 cursou também o doutorado naquela instituição. Em 2010 fez concurso para a cadeira de História Social da Cultura na UFPA e de lá para cá tem exercido a docência na graduação de Museologia e nas pós-graduações de Artes, Antropologia e, atualmente, na de História Social da Amazônia.

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