Naomi Klein: “O futuro é radical, no aspecto ambiental e no político”

Em seu novo livro, jornalista canadense chama população à luta: da jurídica à das ruas e fábricas

CARLES GELI

Como numa apocalíptica versão da Cinderela, o relógio do colapso ambiental se aproxima de meia-noite. E, como as elites não se podem dar ao luxo de levar a sério a mudança climática, pois isso “equivale a reconhecer o fim do projeto neoliberal”, o resto da sociedade precisa agir imediatamente. Isso para não falar da chegada de Trump à presidência dos EUA. Não Basta Dizer Não (Bertrand Brasil) foi a maneira como a jornalista e ativista Naomi Klein (Montreal, 1970) formulou a situação em formato de livro: trocando os prestigiosos tomos ultra-analíticos e com profusão de notas (como nas obras Sem Logo; A Doutrina do Choque…) por um manifesto urgente que chama à mobilização e à luta: da jurídica à das ruas e fábricas.

Pergunta. Desde 2008 vivemos uma brutal desconstrução da esfera pública, a perda de segurança trabalhista e ambiental, desemprego (especialmente o juvenil) muito alto. Mas parece que a trajetória contestadora que havia em 2011 se truncou. As pessoas se convenceram de que o sistema está tão corrompido que já não há mais nada a fazer, e de que o desastre climático é inevitável?

Resposta. Sem dúvida, uma das grandes batalhas hoje é lutar contra esse sentimento de que o colapso é irreversível; não ajuda nada esse boom da ficção distópica, com colapso econômico e oligarquias de ricos que têm segurança, espiões, leis e países quase próprios. Trump é a distopia feita realidade, por isso nos EUA pode haver certo sentimento de complacência dessas elites e de resignação entre o resto; mas muita gente luta contra isso.

P. Uma ideia transversal de seu novo livro é que está ocorrendo um separatismo psicológico das pessoas: uma parte da sociedade mais rica ignora a outra, a ponto de criar zonas verdes, com gente que pode pagar até segurança ou bombeiros privados, e zonas vermelhas, com gente que tem cada vez menos proteção pública. A sociedade hoje está menos democrática e solidária?

R. Sim, temo que seja menos democrática, mas é fruto da desigualdade que as pessoas veem ao seu redor. Os ricos acreditam que poderão se proteger sozinhos do impacto ambiental gerado pelo neocapitalismo selvagem. Há uma guerra contra a democracia porque o sistema, cada vez mais, está construído para servir às elites, e isso se choca com a democracia real, porque há muito mais gente com menos proteção... Tudo isto desestimula as pessoas de votarem: foram 90 milhões de norte-americanos que não foram às urnas nas últimas eleições.

Uma das grandes batalhas hoje é lutar contra esse sentimento de que o colapso é irreversível; não ajuda nada esse boom da ficção distópica. Trump é a distopia feita realidade

P. E essa abstenção?

R. Boa parte foram simpatizantes democratas, que não viram em seu partido uma alternativa real, tinham pouco a propor aos que sofrem; foram os democratas que perderam essas eleições com suas falsas soluções.

Publicada originalmente em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/08/cultura/1510165556_897934.html

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