Especial: as FARC após a guerra

Visita a um acampamento de ex-guerrilheiros. Enquanto cobram cumprimento dos acordos com governo, eles divertem-se, reencontram parentes e tramam uma “Nova Colômbia”, a ser construída também em projetos de Economia Solidária

Sebastián Ronderos

Encontrei o Julian há algumas semanas, membro do comando da Zona Veredal (ZV) Mariana Páez – área de concentração das FARC –, para discutir a situação vivida nos territórios de normalização, possíveis planos de ação conjunta e ultimar detalhes para o desenvolvimento de uma brigada médica.

Fomos num café em uma sexta-feira, ao redor das 7 da tarde. A saudação foi emotiva: “e aí, companheiro!” – exclamou, seguido de um abraço. Reconheci nele uma expressão de inquietação pelo barulho e tumulto ao nosso redor. Procuramos um canto sereno ao fundo e pedimos uma cerveja. “Julian, como foi a chegada?”, – perguntei. “Bogotá é um monstro, meu amigo, não é fácil me acostumar”, – respondeu, sorrindo.

Em seguida, explicou os desafios enfrentados na área: falta água potável e unidades sanitárias. Começam as complicações de saúde, ameaçando principalmente mulheres grávidas e crianças. Lembrou também que até aquele dia haviam sido assassinados 17 ex-guerrilheiros em outras ZV.

Pergunto: “como está a moral no acampamento?” Agacha a cabeça. “Piorando, irmão. O governo não está cumprindo com sua parte. Mas aqui estamos, firmes com a nossa” –responde enfático. Durante a conversa, Julian mostrou uma profunda preocupação com sua gente, mesmo com organização, atento ao próximo congresso das FARC que, naqueles dias, iria acontecer na capital, com os objetivos de definir novas orientações táticas e constituir-se como partido político. Pontuamos uma série de questões a trabalhar na visita e definimos os esquemas logísticos. Finalizamos a cerveja. Abraço e despedida.

Território e Assentamentos

Na tarde de sexta-feira, 15 de setembro, iniciamos nosso caminho para Granada, Departamento de Meta, cerca de 80 km da cidade de Villavicencio, no centro do país Entramos em uma região extremamente ativa no conflito armado, pois, enquanto a cidade de Granada era de presença paramilitar, Mesetas tem sido de influencia farquiana (membros das FARC). Apenas 42 km as separam. Não longe dai fica A Uribe, conhecida por ser o lugar onde Cesar Gaviria bombardeou o acampamento Casa Verde, no final da década de 90, episódio que marcou o fim do cessar fogo e das negociações entre o governo e a guerrilha daquele período.

Sábado (16/9), às 6 da manhã, vamos para Mesetas. Saímos com pouco tempo, pois os farquianos já nos esperavam com o café da manhã pronto. No parque central, Martha, a quem conheci no encontro com Julian, nos aguardava em uns 4×4 de carroceria Gaz e motor Chevrolet para nos dar acesso à área. “Vamos, que uma boa trilha nos espera!”, – exclamou.

Via Uribe, nós desviamos pelo rio El Cafre, entrando em um inclemente caminho de terra que atravessa uma extensa e inóspita planície. “Aqui quando chove só estas máquinas conseguem chegar” – escutamos entre os ruídos de oscilação do chassi. Mais ou menos a 40 minutos, uma blitz interrompe o caminho, em decorrência do processo de desativação de minas. Os guerrilheiros caminhavam por essas estradas, dormiam por essas montanhas e cuidavam da área. Como nela mantinham uma presença reiterada, as minas de explosão pareciam atípicas. Pelo menos suspeitas. “Para mim isto foi feito pelo exército, não podemos esquecer que eles também minaram” – afirma Martha.

Chegando ao acampamento, um sorridente e enérgico Julian nos recebe. “Vá para a sala central, estamos servindo café da manhã”: chocolate, café e uma sopa de batata e ovo. “Aqui fazemos rotação da ranchada (gíria local para se referir à cozinha) e vocês tiveram sorte. Pegaram um camarada com bom tempero”, – disse um jovem, gerando gargalhadas na cozinha.

Publicado originalmente em: https://outraspalavras.net/mundo/america-latina/especial-as-farc-apos-a-guerra/

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