Faroeste caboclo na Amazônia

Por Nirlando Beirão

O que o western clássico pode nos alertar sobre a devastação predatória na floresta

Pense em Shane, por exemplo. O clássico de George Stevens, de 1953, que no Brasil padeceu sob medonho título de Os Brutos Também Amam, instala-se no núcleo mítico da família de rancheiros – pai, mãe, filho – que acreditou no apelo democrático do Go West, Young Man!

É uma pequena chácara, a deles, onde praticam a arte da modesta autossuficiência, quintessência daquele individualismo incrustado na alma norte-americana desde a chegada dos Founding Fathers.

A harmonia desse microuniverso idealizado, bucólico, de rude simplicidade, é ameaçada, porém, pelo mundo em volta. Estancieiros de muitas terras e muito gado cobiçam o pequeno oásis dos Starrets e estão dispostos a usar, nesse sentido, o argumento persuasivo dos pistoleiros de aluguel. Livre iniciativa versus latifúndio – eis uma das mais repetidas chaves simbólicas do western de Hollywood.

Aí, como que enviado pela Providência, surge Shane, cavaleiro de passado obscuro, mas disposto a trocar o ofício das armas por um trabalho pacífico e uma refeição decente. Acolhido pela família e, em especial, pela curiosidade infantil de Joey, Shane esconde suas pistolas. A Joey, que quer aprender a atirar, diz: “A pistola não é boa nem má. Bom ou mau é o homem que a empunha”.

Shane é um arquétipo. De paladino do Medievo a justiceiro da pradaria, ele percorre a trilha problemática de herói fora de lugar, pária involuntário, um aventureiro perseguido pelos tormentos de sua inadaptação social.

Mas longe de querer a paz e a concórdia através das leis superiores do gatilho, Shane tenta adaptar-se à realidade, engajar-se no mundo dos homens do qual foi excluído, sabe-se lá quando, por culpa de sua habilidade com a pistola. A bancada ruralista, porém, não lhe dará sossego.

O Oeste é bravio, terra sem lei, os inimigos não darão trégua, são poderosos e insaciáveis – os mais fortes e menos escrupulosos acabarão por açambarcar a soberania de todo o território. A câmera tensiona a ação ao se posicionar na altura do garoto Joey. O pai e o hóspede se engalfinham antes que Shane, de novo investido de seu inescapável desígnio de pistoleiro, vá desafiar as forças da ganância – quase escrevi, “do mercado”.

Red River (Rio Vermelho, no Brasil) é a culminância do faroeste que os americanos chamam de cattle drive – aquela épica empreitada de conduzir um volumoso rebanho por trilhas incertas vigiadas por índios e ladrões de gado.

O filme de Howard Hawks, de 1948, cita a trilha de Chisholm e a pioneira tentativa de explorá-la, do sul do Texas até o Missouri, 1,6 mil quilômetros de travessia, com o risco dos ataques e dos estouros da manada.

Publicado originalmente em: https://www.cartacapital.com.br/revista/970/faroeste-caboclo

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