Que imagem o Brasil tentará vender na COP23?

Apesar de queda do desmatamento, país chega à Conferência do Clima em meio a aumento de emissões e críticas por retrocessos ambientais. Detentor da maior floresta tropical do mundo busca mais recursos para a Amazônia.

No Brasil, a política ambiental vai bem. É com essa postura que o governo brasileiro inicia sua participação na 23ª Conferência do Clima (COP23) em Bonn, na Alemanha, a partir desta segunda-feira (06/11). Em conversa com a imprensa internacional às vésperas da COP, José Sarney Filho, ministro do Meio Ambiente, afirmou que, ao contrário do que tem sido noticiado dentro e fora do país, não houve retrocessos no cuidado com o meio ambiente.

"No último ano, as notícias e versões que se deram não corresponderam, de fato, àquilo que o governo fez. Nós avançamos na política ambiental e impedimos que essa política ambiental pudesse gerar qualquer impossibilidade de cumprir o Acordo de Paris", afirmou Sarney Filho.

Apesar do otimismo do ministro, há poucos meses, o principal doador do Fundo Amazônia, o governo da Noruega, criticou o Brasil por seguir a "direção errada" na política ambiental. Na sequência, o país escandinavo anunciou o corte de 50% no repasse de recursos ao fundo internacional criado para combater o desmatamento.

No final de outubro, o relatório independente divulgado pelo Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) apontou que as emissões no Brasil aumentaram 9% em 2016.

Em Berlim, lideranças indígenas que vieram à Alemanha para participar da COP23 discordam de Sarney Filho. "Não há nada de bom na política ambiental brasileira recente", afirma Sonia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib). Ela integra um grupo de lideranças da América Latina que viajou, de ônibus, por capitais europeias para falar sobre o papel da floresta no combate às mudanças climáticas.

"Há uma contradição muito grande entre o que é apresentado no discurso internacional e o que é feito na prática. Nós estamos num momento de total desmonte da política ambiental, dos direitos indígenas e sociais como um todo", disse à DW Brasil.

Bancada ruralista

Sarney Filho chefia a delegação brasileira em Bonn, que será acompanhada por parlamentares, representantes de outros ministérios e da sociedade civil. As negociações climáticas que discutem como implementar exatamente o Acordo de Paris, assinado em 2015, serão coordenadas pelo embaixador José Antonio Marcondes de Carvalho.

Carlos Rittl, do Observatório do Clima, rede que reúne 37 entidades, acompanha as negociações com olhar crítico. "Dizer que este governo avançou na política ambiental é contrafactual. Ao contrário, o poder inédito que ganhou a bancada ruralista na administração causou e está causando retrocessos históricos na proteção socioambiental no Brasil", diz.

Dos fatos que indicariam um retrocesso sob o comando dos deputados ligados ao agronegócio, Ritll destaca a lei proposta para fazer a maior redução de área de conservação federal da história; a lei sancionada que anistia a grilagem de terras; e o congelamento das demarcações de terras indígenas.

"O que acontece no governo de Michel Temer é um ataque à legislação ambiental de múltiplas áreas e múltiplos ministérios atendendo a diversos interesses que estão distribuídos ao longo do governo. Portanto, não está nada bem. A área ambiental enfrenta um pesadelo", avalia Márcio Astrini, coordenador de políticas públicas do Greenpeace.

Poucos dias antes de a delegação brasileira embarcar para Bonn, o Ministério da Justiça retomou a discussão de arrendar áreas indígenas para produtores rurais. Segundo a Constituição, essas terras são de usufruto exclusivo das populações indígenas.

Publicada originalmente: http://www.dw.com/pt-br/que-imagem-o-brasil-tentar%C3%A1-vender-na-cop23/a-41251449

Trópico em Movimento © 2016 - 2019.

Campus UFPA - Rua Augusto Corrêa, 01 - Casa do Poema,

Bairro Guamá, 66075-110, Belém, Brasil

(091) 3201-7700

  • Wix Facebook page
  • Wix Twitter page
  • Wix Google+ page