A insurgência política abala a Europa

Em toda o continente, eleitores desiludidos recorrem a estranhos em busca de soluções

Diante da crise econômica e da grande semelhança entre os partidos de centro-direita e centro-esquerda, os correspondentes do jornal Observer nas capitais europeias registram a ascensão de partidos insurgentes em todo o continente

França: Eleitores inquietos aguardam um herói

Para defender sua tese de que os dois partidos da corrente dominante na França são igualmente ineptos, a Frente Nacional passou a chamar seus adversários de UMPS, misturando as siglas da União por um Movimento Popular, de centro-direita, e do Partido Socialista, no governo.

A mensagem anti-imigração populista da FN é muito semelhante à do Ukip da Grã-Bretanha. E, assim como o Ukip, a FN beneficia-se não apenas da decepção causada pela crise econômica, mas também da profunda desilusão com os dois partidos principais, que antes detinham o monopólio do poder.

Na esquerda, o presidente François Hollande e seu Partido Socialista enfrentam críticas de fora e de dentro. Os liberais econômicos acreditam que o governo não realizou e não realizará as reformas estruturais necessárias para gerar empregos, aumentar o crescimento e cortar os gastos públicos. Não é surpresa para ninguém que o déficit da França está em contravenção com as regras da Comissão Europeia. Esse foi o caso até sob Nicolas Sarkozy, de centro-direita, que pouco fez para reduzi-lo.

 

A comissão agora perdeu a paciência e Hollande, o homem atualmente no comando, está sendo responsabilizado. O presidente parece estar abalado. A certa altura, a França pensou que quisesse um monsieur normal, e Hollande se encaixava. Agora o país dá a impressão de que quer um herói e um salvador, e que Hollande é comum demais. Também há uma sensação entre muitos seguidores do PS de que Hollande ganhou a Presidência ao defender um programa socialista, só para se transformar em um social-democrata após eleito. Alguns suspeitam de que isso foi uma medida deliberada e não muito honesta.

 

À direita, a UMP na oposição vem caminhando de desastre em desastre. O partido não tem um líder claro desde pouco depois que Sarkozy perdeu a batalha pela reeleição em 2012. Seu primeiro-ministro, o anglófilo François Fillon, e o jovem líder de direita da UMP Jean-François Copé disputaram cabeça a cabeça a liderança do partido, o herdeiro político do movimento fundado por Charles de Gaulle depois da Segunda Guerra Mundial. A eleição subsequente não foi decisiva e acusações de fraude se transformaram em uma disputa verbal mais ampla. Sarkozy voltou a entrar em cena algumas semanas atrás, mas tem vários adversários em uma primária do partido para novo líder e candidato em 2017.

 

Além disso, a UMP – e Sarkozy – está imersa em vários escândalos que envolvem gastos de campanha. Nesse contexto turbulento, a ascensão da Frente Nacional (FN) lembra o adágio sobre o homem que tem um olho ser rei na terra de cegos. A líder da FN, Marine Le Pen, está apelando para o que Saïd Mahrane descreve na revista Le Point como "os perdedores da globalização" – uma grande fatia da população.

 

Madani Cheurfa, um pesquisador do respeitado grupo de pensadores universitários Cevipof, compara a atual situação política do partido na França aos anos obscuros do reinado de 18 anos do Partido Conservador na Grã-Bretanha – os sete anos entre 1990 e 1997 sob John Major, quando o Partido Trabalhista lutava simultaneamente para encontrar seu caminho. "É como a França está olhando de volta para os anos 1980 e 1990, e não para o futuro", diz Cheurfa, acrescentando que escândalos, inação e disputas intrapartidárias aumentam a percepção pelo público francês – e o argumento central da FN – de que os políticos tradicionais, muitos deles formados em um pequeno grupo de Grandes Ecoles, "são todos iguais".

 

Kim Willsher, de Paris

 

Itália: Grillo aguarda nos bastidores

 

Desde que Matteo Renzi tornou-se o mais jovem primeiro-ministro italiano, aos 39 anos, em fevereiro, apresentando-se como um forasteiro político e prometendo abrir a economia protecionista italiana, os comentaristas têm descontado a outra grande figura anti-establishment da Itália, Beppe Grillo.

 

O ex-comediante stand-up que chegou à fama com críticas ao establishment e um blog extremamente popular, ganhou surpreendentes 8,7 milhões de votos nas eleições de 2013 para a Câmara Baixa da Itália, disputando com o Partido Democrático, de centro-esquerda, um apertado segundo lugar. Mas, desde então, os deputados e senadores que inundaram o Parlamento para representá-lo foram criticados por se recusarem a se associar com outros partidos em leis vitais. Os poucos que o fizeram correram o risco de ser expulsos de seu Movimento Cinco Estrelas.

 

"Existem constantes divisões no grupo parlamentar de Grillo – é muito caótico", diz Roberto D’Alimonte, professor de política na Universidade Livre de Estudos Sociais LUISS, em Roma. "Eles ainda estão esperando que Renzi falhe para que possam herdar o que sobrar do desastre."

 

Além disso, a antiga retórica europeia de Grillo hoje está sendo acompanhada de um ressurgimento da Liga Norte, de direita. Depois de ser dizimado por escândalos, esse partido concentrou seu enfoque na autonomia para o Norte da Itália, e seu novo líder carismático, Matteo Salvini, hoje atrai votos em nível nacional com ataques à imigração.

 

Então, por que, apesar dos reveses, as pesquisas ainda situam Grillo em uma posição saudável? Uma pesquisa de intenções de voto, em novembro, colocou seu movimento em 19,9%, mais que o dobro da Liga Norte, embora atrás dos 38,9% de Renzi.

 

"Até que a economia dê uma volta, Grillo ganhará votos – há muita frustração na Itália", diz D'Alimonte, acrescentando que a revolta de Grillo contra a corrupção continua agradando ao eleitorado. "Ainda lemos todos os dias sobre desvios escandalosos do dinheiro público." O declínio de Silvio Berlusconi também está ajudando o comediante cabeludo, diz D'Alimonte. "Grillo abrange todo o espectro político, tirando votos da esquerda e da direita, exatamente como o Ukip."

 

Tom Kington, de Roma

 

Grécia: Até os ricos se voltam para a esquerda

A Grécia, talvez mais que qualquer país da Europa, simboliza a ascensão dos insurgentes de esquerda e de direita. A nação na linha de frente da crise do euro foi a primeira a dispensar os políticos da corrente dominante, enquanto seu eleitorado rejeitava partidos associados às práticas corruptas consideradas culpadas pela quase morte econômica de Atenas. No lugar do Pasok, de centro-esquerda, e do Nova Democracia, de centro-direita, os partidos que se alternaram no poder durante 40 anos, veio o Syriza, uma mistura de esquerdistas radicais, e a face ameaçadora do neofascismo na forma do Aurora Dourada.

"Podemos mudar o curso da Europa, conter a austeridade catastrófica e trazer de volta a democracia e a justiça social", disse o líder do Syriza, Alexis Tsipras, a participantes da cerimônia de fundação, em Madri, no sábado 15, do partido Podemos. "A cada dia que passa, o movimento popular em nossos países (do Sul) torna-se o inimigo aterrorizante da hegemonia neoliberal alemã."

Pesquisas de opinião apoiariam essa visão. Antes da queda, o Pasok e o Nova Democracia representavam 83% do voto popular. No mês passado, o apoio ao Syriza, que representava menos de 5% antes da crise, disparou para 35%, mais que o total combinado dos conservadores e socialistas.

Nas últimas semanas, pesquisas mostraram o grupo com uma vantagem de até 11 pontos contra o Nova Democracia, embora ainda seja discutível se o partido conquistará votos suficientes para obter maioria parlamentar.

Assim como o Aurora Dourada (que se saiu surpreendentemente bem nas eleições europeias de maio, mas cujas porcentagens caíram desde então), o Syriza fez um esforço conjugado para moderar sua retórica na tentativa de ampliar sua base de apoio. Em vez de rasgar o oneroso programa de socorro à Grécia patrocinado pela UE e o FMI, o partido fala em "renegociar" o acordo.

Em setembro, o telegênico Tsipras, um ateu confesso, fez uma viagem a Roma para conversar com o papa Francisco. Este mês ele visitará o novo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, no que alguns acreditam que será uma tentativa de melhorar as relações, apesar de sua ameaça de revogar a maioria das reformas impopulares implementadas desde o início da crise. Ele já teve "discussões construtivas" com o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi.

A aposta fracassada do primeiro-ministro Antonis Samaras em livrar-se da supervisão internacional ao sair prematuramente do programa de ajuda também prejudicou o apelo de seu frágil governo.

A euforia sobre os números da UE que mostram que a Grécia finalmente está saindo de sua recessão recorde (embora com baixas taxas de crescimento) foi prejudicada recentemente pela decisão de um deputado conservador proeminente de renunciar, no que foi considerado um início de abandono da coalizão governante pelos círculos pró-empresas. Em vez disso, membros importantes da elite grega (a começar por Gianna Angelopoulous, que organizou as Olimpíadas de Atenas em 2004 e é casada com um armador bilionário), estão abraçando o populista e anti-establishment Syriza.

Com a perda de mais de um quarto da produção nacional, 1,5 milhão de pessoas sem trabalho e uma população cada vez mais exausta pelos cortes incansáveis e os aumentos de impostos, muitos na Grécia sentem que não têm nada a perder ao dar à esquerda uma oportunidade no poder. Essa perspectiva parece cada vez mais provável, se o governo não obtiver os 180 votos necessários para eleger um novo chefe de Estado em fevereiro.

Na semana passada, Tsipras, de 40 anos, intensificou os apelos por eleições rápidas, dizendo que "as eleições da entrega e da mudança" são cruciais não apenas para permitir que os gregos decidam "por si mesmos", mas para livrar o país das potências internacionais que supervisionam seu empobrecimento.

Helena Smith, de Atenas

Alemanha: Ainda estável – mas a votação diminui

A notícia de que a Alemanha poderá ter seu primeiro primeiro-ministro socialista levou alguns comentaristas estrangeiros a concluir que, de maneira semelhante a outros países da Europa, a Alemanha está vendo a ascensão de partidos populistas de esquerda e de direita. Mas as coisas não são tão simples.

Enquanto parece provável que o partido Die Linke (A Esquerda) forneça o próximo primeiro-ministro estadual na região da Turíngia, isso tem menos a ver com o surto de apoio à extrema-esquerda (na Turíngia, ela ganhou apenas 0,8% na última eleição, em 2009) do que com partidos de centro-esquerda (como os Social-Democratas e os Verdes) superarem antigas disputas sobre entrar em coalizão com o sucessor do partido governante da Alemanha Oriental comunista, o SED. A esquerda pode pela primeira vez ter ficado em terceiro nas eleições gerais do ano passado, mas, desde então, não fez ganhos dignos de nota nas eleições regionais em sua porção oriental. Em Brandemburgo, o partido perdeu até 9% em relação à eleição anterior.

Publicado originalmente em: http://www.cartacapital.com.br/internacional/a-insurgencia-politica-abala-a-europa-3756.html

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