Mais impostos para os ricos, pedem os brasileiros

Pesquisa inédita revela: população compreende injustiça fiscal do país e deseja corrigi-la. Também rejeita o “Estado Mínimo – quer impostos para “custear políticas sociais”

Um mito difundido há muito pelo pensamento conservador – e aceito sem críticas por parte da esquerda – está prestes a ruir. Não – não é verdade que os brasileiros rejeitem, em qualquer condição, o aumento de impostos. Uma pesquisa da Oxfam Brasil, em parceria com o Instituto Datafolha demonstra o contrário. Entre a população, 75% rejeitam uma elevação genérica de tributos, que atinja toda a sociedade. Porém, uma maioria igualmente esmagadora (71%) apoia o aumento de tributos “para as pessoas mais ricas”. E mais: 72% querem a redução dos impostos indiretos – aqueles que poupam os privilegiados e incidem pesadamente sobre os mais pobres.

A pesquisa, que ouviu 2.025 pessoas em todo o país, em agosto de 2017, confirma as hipóteses de quem contesta outra ideia muito difundida: a de que o Brasil “possui a maior carga tributária do planeta”. Os entrevistados percebem outra realidade, muito mais sofisticada: o problema não é o peso dos impostos – mas seu caráter injusto. Tanto assim há vasto apoio para a proposta de tributar mais pesadamente os ricos – inclusive porque 91% concordam que, no Brasil, “poucas pessoas ganham muito dinheiro enquanto muitos ganham pouco”. De quebra, a grande maioria também contesta a noção de “Estado Mínimo” – porque defende mais impostos precisamente para “custear as políticas sociais”…

A noção de injustiça fiscal, que emerge do levantamento Oxfam/Datafolha, coincide, aliás, com os dados objetivos da Receita Federal. Segundo estes, os muito ricos brasileiros têm de fato grande isenção de impostos. O grupo que compõe o 0,1% mais rico tem 66% de isenção. Já a classe média (que recebe entre 3 e 20 salários mínimos), tem apenas 17% de isenção, em média. A Oxfam Brasil considera os “muito ricos” como aqueles pertencentes ao 0,1% da população, com ganhos a partir de 80 salários mínimos mensais.

Dados do relatório A Distância Que Nos Une, lançado pela Oxfam Brasil em setembro passado, dão ainda maior peso aos resultados da pesquisa. Um trabalhador que vive com um salário mínimo mensal no Brasil levaria 19 anos para ganhar o que um muito rico ganha em um mês. E mais: 5% da população abocanham a mesma fatia da renda nacional que os demais 95%.

A pesquisa Oxfam Brasil/Datafolha também revela que a maioria das pessoas desconhece seu lugar na pirâmide social, subestimando a classificação da sua renda no conjunto de todos os brasileiros. Metade dos entrevistados (47%) acredita que é necessária uma renda mensal superior a R$ 20 mil para compor o grupo dos 10% mais ricos do País. Contudo, a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD/IBGE, 2015) mostra que para estar entre os 10% mais ricos bastar ganhar R$ 3 mil mensais.

A percepção equivocada deve-se, provavelmente, à invisibilidade da grande massa de desfavorecidos. “Esse imenso contingente de brasileiros com baixa renda esconde a dimensão da desigualdade existente no País”, afirma Katia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil. “As pessoas têm a impressão de que estão numa situação difícil, quando na verdade há camadas muito mais pobres do que ela”, explica. Para Katia, quando a sociedade não consegue se localizar na pirâmide social, a luta contra a desigualdade perde a força.

Publicada originalmente em: http://outraspalavras.net/brasil/mais-impostos-para-os-ricos-pedem-os-brasileiros/

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