Não há vencedores claros com veredito contra Lula, diz brasilianista

Paula Adamo Idoeta

O veredito contrário ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quarta-feira não traz vencedores claros no curto prazo, mesmo sendo comemorado por antilulistas, avalia o brasilianista Mark Langevin, professor na Universidade George Washington, nos EUA, instituição em que dirige um programa sobre o Brasil.

Para o pesquisador, o caso coloca o Poder Judiciário sob escrutínio, ao mesmo tempo em que não deixa claro quem se beneficiará do espólio de Lula caso ele fique, de fato, inelegível para o pleito presidencial de outubro.

"Foi um dia ruim para todo o mundo. Todos os lados (da disputa ideológica) devem encarar o resultado de hoje (quarta-feira) com sobriedade, porque não foi um grande caso (judicial)", opina Langevin em entrevista à BBC Brasil.

"É um caso que provavelmente não iria a julgamento nos EUA, na Europa ou no Canadá, pela dificuldade (da Promotoria) em estabelecer os fatos (em referência à posse e ao usufruto do tríplex por Lula) e o 'toma lá dá cá' que embasou a condenação. Dito isso, todos estamos cientes (do que foi revelado pela operação) Lava Jato e da corrupção em todo o sistema de financiamento político no Brasil."

O brasilianista avalia que o fato de os três desembargadores do TRF-4 que julgaram o caso em segunda instância terem votado unanimemente pela condenação e pelo aumento de pena de Lula causa "estranheza" e "cria uma nuvem sobre o processo".

Herança de votos?

Politicamente, ainda que a maioria dos brasileiros esteja contando com as eleições para obter alguma "ordem", a condenação de Lula - acompanhada de sua possível inegibilidade - tampouco traz dividendos claros, opina Langevin.

Questionado sobre a possibilidade de candidatos mais à direita se beneficiarem, o americano acredita que há duas formas de encarar isso.

"Há pessoas como FHC, que dizem que é melhor vencer Lula nas urnas do que vê-lo na cadeia (o ex-presidente tucano deu essa declaração em dezembro), porque se Lula não concorre, quem quer que vença vai ter um asterisco sobre seu nome, 'venceu porque ele não concorreu'. Em segundo lugar, até (Jair) Bolsonaro terá dificuldade em polarizar com outros candidatos que não Lula. (...) Para ele seria mais fácil dizer 'Lula destruiu o Brasil'. Até Bolsonaro perde força nesse cenário."

À esquerda do espectro político, tampouco está claro quem vai herdar os votos lulistas caso este não concorra, sobretudo no Nordeste, reduto onde o ex-presidente tem mais força, afirma Langevin. "Não vejo nenhum candidato ganhando muita energia com essa decisão (judicial). (Mas) é algo que pode mudar com o tempo."

Impressões internacionais

Questionado sobre a imagem do Brasil se tornar melhor ou pior com a decisão do TRF-4, Langevin opina que o que se destaca na decisão, de um ponto de vista estrangeiro, é a necessidade de reformas em todos os Poderes no Brasil.

"Todos querem que o Brasil seja bem-sucedido, mas querem as reformas necessárias - e não só fiscal e previdenciária, mas política, que permita a eleição de políticos responsáveis, e não apenas dos que têm acesso (a financiamento)", diz o brasilianista.

"O Brasil precisa de legitimidade em todos os Poderes e têm tido dificuldades com isso", agrega, citando a ampla quantidade de parlamentares sob investigação no Legislativo e "problemas" no Judiciário: "Os juízes não têm sido cuidadosos em manter distância dos holofotes e em seguir o devido processo legal", acredita Langevin.

Por fim, ele opina que há questões do financiamento político brasileiro que ainda não foram alteradas, a despeito dos avanços resultantes da Lava Jato.

"A questão que nem (o juiz Sergio) Moro, nem a força-tarefa (da Lava Jato) nem a própria imprensa têm se perguntado é: por que as campanhas eleitorais brasileiras exigem tanto dinheiro? O espaço na TV e no rádio é gratuito. Os candidatos não podem fazer showmícios ou distribuir cestas básicas. Por que estão gastando tanto ou mais quanto gastamos aqui nos EUA - onde a maioria do dinheiro vai para comprar espaço na TV?", questiona.

"(E todos os envolvidos) sabem que esse dinheiro vai para pagamentos ilegais e laterais a políticos por todo o Brasil, que são uma espécie de 'guardiões' (de acesso ao eleitorado), para que se faça campanha em seus redutos. (O dinheiro) vai para grupos políticos em cidades pequenas, debaixo do pano, para dar acesso aos eleitores", acrescenta.

"Esse é o sistema que precisa ser corrigido. E nenhum partido apresentou nenhuma reforma política para atacar diretamente (esse tipo de) pagamento feito por fora usado para vencer eleições."

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-42783307

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