"Nosso desafio é manter viva a esperança"

Carta Maior conversou com o pesquisador francês Christophe Ventura, que esteve no Brasil para participar do Fórum Social Mundial 2018, entre 13 e 17 de março em Salvador

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Clarisse Meireles


“Guardemos o pessimismo para dias melhores”, máxima de autor desconhecido, parece o melhor resumo para o momento da esquerda global. Governos sequestrados pela plutocracia, perda acelerada de direitos sociais em várias regiões sob ataque cerrado da hegemonia neoliberal, concentração de riqueza em alta, guerras e crises de refugiados, Donald Trump.

Na América Latina, o ciclo de governos progressistas foi rompido – em alguns países, como o Brasil, com golpes 2.0, ditos institucionais. Também no Brasil, a judicialização da política atinge o ápice, tentando impedir o candidato à frente das pesquisas, o ex-presidente Lula, de concorrer à presidência este ano.

Sobre estes e outros desafios do campo popular no Brasil e no mundo, Carta Maior conversou com o pesquisador francês Christophe Ventura, que esteve no Brasil para participar do Fórum Social Mundial 2018, entre 13 e 17 de março em Salvador. Professor do IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, em Paris, Ventura participou da criação e concepção do FSM desde o início, em 2001, em Porto Alegre, foi secretário de relações internacionais do Parti de Gauche e ex-assessor internacional de Jean-Luc Mélenchon e é especialista em América Latina e um dos editores do site Mémoire des Luttes.

Carta Maior: Que balanço faz do Fórum Social 2018?

Christophe Ventura: Em parte, foi um sucesso. Em parte, confirmou os limites deste formato. Foi um sucesso porque o público foi importante. Os números oficiais falam em 60 mil participantes. Muitos apoiadores de Lula, como CUT, PT, PCdoB e organizações próximas. Alguma presença do MST. Um segundo grupo foram os jovens, estudantes, em grande número. O terceiro e menor estrato foram os estrangeiros. Foram poucas delegações da França, EUA, Canadá francófono. Havia bem poucos africanos. Era basicamente um Fórum brasileiro. Isso nos indica algo sobre o perímetro do Fórum. Não havia a consistência habitual, internacional, dos FSM. Isso nos diz algo sobre o desinvestimento militante internacional em relação ao FSM. A participação estrangeira é uma participação estrutural de organismos internacionais, ONGs, associações, sindicatos, que enviam seus profissionais. É mais a estrutura do que a base militante que vem. Mas foi um sucesso em termos de público, bons debates, cerca de 1600 atividades, tudo isso foi bom. Mas a relação com Lula foi menos bem articulada.

Como assim?

A articulação entre a vinda de Lula e o Forum não foi muito boa, ele não veio ao Fórum. Fez reuniões fora, com pessoas que participavam do Fórum. Lançamento do comitê internacional de solidariedade a Lula e à democracia. Depois se reuniu com representantes das organizações presentes no Fórum. À noite fez um ato no estádio do Pituaçu, em Salvador. O estádio estava bem vazio. Pareceu um problema de organização do PT, de comunicação. E o estádio é longe do centro da cidade, de relativamente difícil acesso. Sem sistema de transporte do Fórum até lá. Acho que isso sinaliza uma dificuldade atual do PT em mobilizar. O discurso de Lula, no entanto, foi excelente. Infelizmente, poucas pessoas estavam lá para ouvir. Ele reafirmou que não vai se opor à Justiça, mas que será candidato porque é inocente, que está tranquilo. Se for preso, será um inocente preso, e continuará a lutar da prisão. Como estrangeiro, fiquei surpreso de ver como o ato não foi transmitido nem mencionado em nenhum canal de TV, nem mesmo regional. É incrível e muito violenta essa invisibilidade.

A que limites do Fórum se refere acima?

A fórmula está engessada, e não ceio que se transformará. Não sei nem mesmo se haverá um próximo FSM. Do Fórum nasceram núcleos, redes, elos internacionais temáticos. Essas estruturas menores vão sobreviver. Essa é a nova etapa. Não me parece que o Fórum ainda tenha algo a oferecer nesse formato. O FSM é um evento e um processo que datam de uma época que passou: o mundo de antes de 2008, de antes da crise internacional. Passamos de uma época em que o desafio era construir outra globalização (l’altermondialisation). O tempo de hoje é caracterizado por uma fobia da globalização. Não é mais a mesma coisa.

Também passamos de um tempo em que as lutas sociais e políticas estavam muito fortes na América Latina, eram o resultado de um processo que havia começado 20 anos antes na região, de abertura. E encontravam uma materialização política nos primeiros governos de transformação social que chegavam ao poder na AL. E o FSM funcionava porque era o espaço onde se combinavam e se articulavam estas duas dinâmicas, de baixo para cima e de cima para baixo. E isso dava uma força extraordinária ao encontro, que nos beneficiava a todos. Dava-nos mais força do que tínhamos de fato, por exemplo, na Europa. Voltávamos com muita esperança. E durante todos estes anos o FSM permitiu que fossem criadas essas redes de movimentos internacionais, que levaram anos para se estreitar, se conhecer, criar campanhas e agendas comuns. São ramificações menos visíveis que o próprio Fórum, mas vivas.

E então veio 2008. E o FSM não está mais adaptado à realidade atual. Primeiro porque perdemos a batalha da “outra globalização” diante da precipitação da crise, da aceleração das tensões, dos conflitos, das guerras, da ascensão dos nacionalismos etc. E hoje vemos que nos setores mais populares, seja aqui no Brasil seja no hemisfério Norte, não há mais esperança na globalização. Há uma rejeição a ela. Esta batalha nós perdemos. Segundo problema do FSM: não só a forma de organização foi ultrapassada pelo contexto, não responde mais à realidade, como a batalha à qual nos lançamos não foi ganha. Então nos encontramos nesse momento de perda de hegemonia. Este FSM é o reflexo de algo que não existe mais como dinâmica, existe como um espectro que guardamos dos encontros passados. Não tem mais o peso que tinha na cena política mundial. Houve um esgotamento.

Se de fato o Fórum Social Mundial não vier mais a ocorrer, o que sobreviverá, qual seu legado?

O FSM tem características que nenhum outro espaço conseguiu substituir. Para as organizações – sindicatos, associações, movimentos de mulheres – o FSM é um espaço de encontro e de trabalho ainda único. Esse espaço não pode se perder, mas talvez passe a ter outro nome que não Fórum Social Mundial, adaptado a este período pós-2008, em que não temos mais a liderança da ideologia, perdemos o poder de organização. E por isso mesmo ainda é preciso resistir, trabalhar juntos.

Os atores destes movimentos continuarão ativos por muito tempo, e isso é positivo. As pessoas que participam e participaram dos FSM fazem um trabalho de fôlego, de longo prazo, e existem hoje no mundo essas cadeias e redes de movimentos de resistência e contestação que se organizam no nível internacional. Que fazem um trabalho de campo e buscam formas de atuação e luta comum. Isso é uma conquista que não se perderá.

Os grandes temas do Fórum 2018 foram a juventude e as mulheres. Não me surpreendeu, pois nesse momento de refluxo que vivemos, o movimento feminista é o que está mais forte. Hoje, são as lutas setoriais e identitárias que estão mais fortalecidas.

O que é, aliás, criticado por parte da esquerda como uma pulverização das lutas. O que acha desta crítica?

Talvez os críticos tenham um pouco razão e hoje a dificuldade é conseguir reunir a resistência em torno da luta de classes, e saber como rearticulá-la. Mas a esquerda não tem mais conseguido fazer isso. Porque tudo mudou. Hoje, somos confrontados a processos capitalistas de produção que transformaram completamente a sociologia da condição operária tradicional, as relações de poder entre trabalhador e capital, e não compreendemos o fenômeno ainda em sua totalidade. Além disso, o movimento operário ainda está sob o impacto do desmoronamento de seu imaginário, ainda não se superou o fim da União Soviética, e este movimento popular não tem mais um imaginário global. O que há são as lutas setoriais. É o momento em que estamos, e que deve durar muito tempo. 

 

Como entender por que, mesmo diante de tantos ataques neoliberais aos direitos trabalhistas, à aposentadoria, ao serviço público, que ocorrem no Brasil desde o golpe, parte da classe trabalhadora pareça anestesiada?

É um movimento mundial. Na França, o presidente Emmanuel Macron promete privatizar a empresa ferroviária estatal (SNCF), além de mexer nos direitos trabalhistas, entre outras reformas neoliberais. E vai ser difícil impedi-lo.  O discurso da modernização foi adotado pela grande mídia. O que falta aos trabalhadores hoje é esperança. Não há mais ninguém dizendo e mostrando que um outro mundo é possível (slogan do FSM). As pessoas hoje querem apenas se proteger um pouco e perder o menos possível.  Não estão mais dispostas a se engajar em lutas ao nosso lado, quando dizemos ‘nós somos o futuro’. Não, por ora nós perdemos. E isso é doloroso. É um momento de reorganização ou, mais ainda, de reconfiguração.

Como vê a possibilidade de uma prisão de Lula, e a postura do Partido dos Trabalhadores de manter a candidatura até o fim?

É uma estratégia arriscada. Lula é criticável, evidentemente, seu legado, suas ambiguidades. Ouço muita gente da esquerda se perguntar: mesmo se Lula ganhar, que governo ele fará? Muitos temem que ele continue a trabalhar neste sistema com o PMDB de sempre. Que entre enfraquecido, e seja novamente obrigado a fazer concessões à direita. Que não seja mais capaz de propor um novo pacto entre trabalho e capital. Porém, ainda que todas essas críticas e temores sejam legítimos, a dificuldade da esquerda é que não há hoje uma alternativa a Lula. Conheci Guilherme Boulos na Bahia, ele é brilhante. O problema é que qualquer outro candidato de esquerda que não tenha o apoio de Lula será facilmente derrotado.

A dificuldade da esquerda, que é um fracasso também de Lula e do PT, é não ter construído um sucessor de Lula. Ao mesmo tempo, se Lula simplesmente aceitar sua sentença e retirar sua candidatura, acabou. Se Lula se mantém candidato, me parece um meio de impedir que a eleição normalize a crise democrática no Brasil. É mostrar que o país permanece em uma crise democrática que não foi resolvida.  O que vem depois não se sabe, é algo totalmente inédito. O fato é que Lula continua a ser incontornável para a política brasileira. E acho interessante que sua candidatura sirva para impor um estado de crise permanente.

Segundo as pesquisas, Lula não tem concorrentes nem á esquerda nem à direita, aliás.

Ontem, chegando ao Rio, peguei um táxi. O motorista era muito simpático. Comecei a puxar assunto sobre a política brasileira, dizendo como estava tudo complicado. Perguntei sobre Marielle Franco. Ele disse: “ah, ela era mulher de um traficante e trabalhava para o Comando Vermelho...” E Lula?, perguntei. “Ah, um corrupto”, ele respondeu. Ok. E Temer?, emendei. “Pior ainda”, disse. É uma loucura a depreciação da classe política, e a descrença na política em geral que senti aqui. Uma resignação e um acomodamento.  O problema deste tipo de descrédito da política é que ele é propício ao fascismo. Porque a direita está mal também. Eles não têm ninguém.

Hoje, vários presidentes ou ex-presidentes de países latinoamericanos estão presos ou são acusados de corrupção – todos, não por acaso, progressistas. Argentina, Brasil, Equador, Peru, Chile e tiveram seus recentes processos eleitorais influenciados ou abalados por questões jurídicas. Concorda com alguns analistas que afirmam que o Lawfare na América Latina é a nova face da Operação Condor?

É uma boa análise. A América Latina hoje nos mostra como novos tipos de regimes políticos são implementados. São regimes neoliberais do ponto de vista econômico e social, e autoritários e securitários do ponto de vista político e democrático – como vemos agora com a intervenção militar no estado do Rio. O objetivo é duplo: confiscar e reduzir os direitos sociais e democráticos e reprimir, de formas diversas, qualquer forma de contestação. Uma dessas formas sendo a justamente a judicialização da vida pública. A América Latina é o laboratório desta tendência, deste tipo de regime que veremos surgir, infelizmente, em toda parte. A questão legal vai se tornar uma arma de eliminação dos adversários. Essa questão do Lawfare é muito subestimada na Europa, para não dizer desconhecida mesmo. É preciso que se fale mais nisso, pois penso que em breve chegará a outras regiões do mundo.

Como é a percepção da Europa sobre a situação política no Brasil?

Há um desinteresse, uma ignorância midiática do que se passa na região, que não são novos. Mas que são graves nas circunstâncias atuais, porque a maioria não entende nada do que está acontecendo. E ninguém fala desse assunto. Quando alguém usa a palavra Golpe, imediatamente outros, até na mídia, vêm dizer que é exagero, que tudo está normal por aqui. A impressão é que o único problema na América Latina é a Venezuela, e talvez Cuba. Sobre a Venezuela, a mídia diz que é uma situação de extrema gravidade, que é uma ditadura. No resto está tudo bem: o México e o Brasil são países com os quais não devemos nos preocupar. Claro, há o problema da violência, mas é devido à pobreza, à falta de organização, à fragilidade das instituições. Tudo isso é real. Mas nunca há uma análise estrutural. E de todo modo, o mais comum é que a mídia estrangeira repita a propaganda da mídia local, que é de direita. Isso faz parte de uma crise maior da imprensa francesa, no caso. Os grandes veículos foram sendo comprados por grandes grupos empresariais, e não há mais jornalistas que conhecem os países dos quais devem falar. Eles leem as agências de notícias e os grandes jornais e repetem. E os jornais descrevem a situação como uma telenovela. Então é natural que as pessoas não entendam o que se passa no Brasil, o que está em jogo. Na França, não se enxerga a importância da situação latino-americana atual.       

O especialista em direitos humanos da ONU, Alfred de Zayas, afirmou recentemente que não há crise humanitária na Venezuela, e que são justamente as sanções internacionais que ameaçam a estabilidade do país. É possível ser otimista em relação ao futuro do país? Pensa que Maduro e a população venezuelana vão sobreviver à campanha de diabolização internacional, travestida de preocupação humanitária?

Espero que o povo venezuelano resista. Penso que não há solução sem o chavismo no país. Acredito que os americanos e europeus não serão capazes de uma intervenção internacional no país, que transformaria o país numa Síria latino-americana. Se houver uma intervenção, o país vai explodir. Há um núcleo chavista, que representa pelo menos 30% a 35% da população, que não cederá jamais à pressão. Haveria uma guerra civil, como na Síria, se acontecesse uma intervenção, que eu espero que não ocorra. Espero que se encontrem outras soluções. Creio que enquanto o exército apoiar Maduro, eles resistem.

Maduro está certo quando solicita que a ONU envie observadores para as eleições. É preciso que essas eleições de 20 de maio permitam relegitimar a política, e não o enfrentamento – esta tem sido, aliás, a linha de Maduro até hoje. Quem quer a confusão, o conflito, é uma parte da oposição, pois sabe que não ganha as eleições. Tudo indica que Maduro vá ganhar as eleições. No sistema eleitoral venezuelano, ganha o primeiro colocado (em único turno). Se Maduro fizer 25% dos votos, pode parecer pouco, mas se os adversários fizerem 5% ou 7%, ele é reeleito. Que a situação do país está ruim é inegável. Mas essa eleição precisa acontecer e tudo precisa correr bem para que o país saia dessa situação de crise aguda.        

 

Publicada em: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Historias-do-Futuro/-Nosso-desafio-e-manter-viva-a-esperanca-/48/39680 

 

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