O jasmim perfuma a Tunísia

Moro num país revolucionário, abençoado por Alá e contraditório por natureza

"As mulheres andam todas de burca?”
“Você também tem de usar véu?” 
“Tem coragem de morar nessa terra perigosa, cheia de terroristas?”

Toda vez que volto ao Brasil, estas são as primeiras perguntas. Alguns acrescentam: “Ah, aquele país onde começou a Primavera Árabe, não é?” Uns fazem cara de saber onde fica, mas sem de fato saberem. No nosso mundo tão globalizado e conectado, as informações superficiais que circulam acabam sendo distorcidas, mal interpretadas, e por vezes não correspondem à realidade. 

Não, eu não tenho de usar véu. Nenhuma mulher é obrigada a usar véu. As mulheres que usam véu o fazem por tradição familiar ou por convicção religiosa íntima. Nádia, 49 anos, dona de casa, me confiou: “Uso véu porque gosto de usar, apesar de o meu marido ser contra. Ele prefere me ver de cabelos soltos”. 

Eu, à noite, coloco meu pretinho básico decotado, solto meus cachos e saio para encontrar as amigas num dos restaurantes de La Marsa, em torno de uma garrafa de Magoum, vinho tinto local. Se durante o dia o consumo de álcool e o uso de decotes é mais restrito, durante a noite os tunisianos sabem fazer festa. 

Tunísia comemora agora em janeiro sete anos de revolução. No começo de 2011, o presidente-ditador Ben Ali deixou o país, depois de quase um mês de intensas manifestações populares, que terminaram com a morte de 221 pessoas. A revolução tunisiana, conhecida como “Revolução do Jasmim”, foi o estopim da Primavera Árabe, uma onda de protestos em outros países muçulmanos, levando à destituição de ditadores em uns e a guerras civis em outros, como aconteceu no Egito, na Líbia, na Síria e no Iêmen. De todos os países da Primavera Árabe, a Tunísia foi o único que conseguiu realizar, apesar das dificuldades, uma transição democrática.

Quando me mudei para a Tunísia no começo de 2012, o partido islamista tinha acabado de ganhar as eleições legislativas e nomeado seu primeiro-ministro. A revolução permitiu que os islamistas, perseguidos sob Ben Ali, pudessem participar livremente das decisões políticas do país. Lembro muito bem que foi um ano dramático, com a sociedade bastante polarizada. 

Jornalistas e artistas queriam mais liberdade de expressão, os salafistas (grupo islamista mais radical) queimavam obras “blasfematórias”, ameaçando de morte os seus autores. Mulheres engajadas e feministas foram às ruas defender os direitos adquiridos. O niqab, vestimenta feminina em que apenas os olhos ficam descobertos, começou a aparecer em alguns bairros. As mulheres mais conservadoras voltaram a usar véu, acessório antes indesejado aos olhos da polícia de Ben Ali. Na praia, os biquínis ficaram mais raros de se ver. 

Chegou ao ponto em que as milícias islamistas fecharam bares e restaurantes durante o Ramadã, o mês sagrado do Islã, e começaram a punir a venda de bebidas alcoólicas no interior do país.

“Eles (os salafistas) estão cada vez mais próximos, mas não vão conseguir se instalar. Nosso Islã é moderado. Aqui temos mesquitas, igrejas e sinagogas. Nós vamos resistir”, me falou, num dia de grande tensão, Hayet, de 45 anos, dona de um salão de beleza. O país estava à beira do caos em 2013, com o assassinato de dois opositores políticos do partido de esquerda laico Front Populaire (C. Belaïd e M. Brahmi). Milhares de pessoas nas ruas se manifestando. 

A situação do país encontrava-se tão dramática que as quatro mais importantes organizações da sociedade civil, algumas antagonistas entre elas, se juntaram para formar o que foi chamado de Quarteto de Diálogo Nacional.

A União do Trabalho (UGTT), a Confederação da Indústria, Comércio e Artesanato (Utica), a Liga dos Direitos Humanos (LTDH) e a Ordem dos Advogados conseguiram negociar com o governo uma saída da crise: instauração de um governo “tecnocrático independente” e a preservação da identidade nacional na nova constituição. Hayet, a cabeleireira, tinha razão: o islamismo radical não iria triunfar. E o Quarteto viria a ganhar o Prêmio Nobel da Paz de 2015, reconhecimento de sua enorme contribuição à instauração da democracia na Tunísia.

Relevante dentro do Quarteto foi o papel de uma mulher: Ouided Bouchamaoui, presidente da Utica, a “patroa dos patrões”, figura entre as 25 empresárias mais importantes da África na escolha da revista Jeune Afrique. As mulheres são a alma e o esqueleto da Tunísia. Militantes e instruídas, participaram intensamente dos movimentos sociais que ocasionaram a queda de Ben Ali e hoje ocupam 67 cadeiras do total de 217 da Assembleia Nacional, o que corresponde ao índice de 31,3%, o maior do mundo árabe e da África. No Brasil, a porcentagem é de apenas 10%. 

Nas regiões do centro-sul, exportadoras de frutas e azeite, são as mulheres a grande força e mão de obra. Conheço muitas mulheres que comandam os pequenos ateliês de produção de tapetes e artesanato e muitas das vezes são a principal fonte de renda do lar. No entanto, a sociedade continua sendo patriarcal e, para serem respeitadas, as mulheres aprendem desde cedo a se impor. Levei meses para entender por que mulheres tinham tendência a tratar os homens com rispidez.

Várias vezes vi empresárias gritarem com seus funcionários homens. Presenciei mulheres levantarem a voz contra algum comentário machista, gritar mais alto para serem respeitadas. Ao mesmo tempo, reparei que essas mulheres tão fortes continuam perpetuando a tradição de criar seus filhos homens como “meninos reis”. Contradições tunisianas.

Mas, em 2017, duas leis históricas no mundo árabe foram aprovadas: uma contra toda forma de violência contra a mulher (física, moral, sexual); e a outra permitindo que mulheres pudessem se casar com não muçulmanos.

Se as mulheres conseguiram ao longo desses anos conquistas concretas, o mesmo não se pode dizer das minorias sexuais. Assumir-se homossexual na Tunísia é ainda passível de pena de até três anos de prisão. O processo penal inclui o humilhante teste anal, inúmeras vezes denunciado por militantes dos direitos humanos. A religião e a tradição exercem um grande peso para que a homossexualidade seja tratada como tabu.

“Uma verdadeira hipocrisia da sociedade”, desabafa o dançarino Nicolas*, de 32 anos, expatriado e homossexual. “O problema não é ser homossexual. É assumir-se como homossexual. Todos sabem que tem muito gay aqui. Eu não tive tantos problemas porque meu parceiro tinha boa situação financeira. Ter dinheiro te permite ser aceito, contanto que não se fale no assunto. Mas muitos satisfazem seus desejos de forma bem escondida”. A revolução permitiu que associações de defesa dos direitos da comunidade LGBT fossem criadas, como a Shams, mas seus membros já receberam inúmeras ameaças de morte. 

Em outubro de 2014, o povo tunisiano elegeu diretamente, aos 88 anos, Beji Caid Essebsi, do partido laico Nidaa Tunes, discípulo de Habib Bourguiba, herói da independência. Beji é o primeiro presidente da sua nascente democracia. Se a revolução trouxe conquistas nos direitos da mulher e uma liberdade de expressão jamais vista, ainda resta um longo caminho a percorrer em matéria de geração de empregos e na infraestrutura, principalmente nas regiões esquecidas do centro-sul do país. 

A economia depende bastante do turismo. O país detém uma grande rede hoteleira, voltada para a recepção de grandes grupos de estrangeiros, europeus na sua maioria. O setor entrou em crise logo após a revolução e os atentados terroristas de 2015 (no Museu do Bardo e na estação balneária de Sousse) fizeram muitos hotéis, lojas e restaurantes fecharem as portas. Mas nestes meus cinco anos aqui pude perceber de forma clara que a Tunísia não é uma terra perigosa no dia a dia.

Venho de Fortaleza, cidade extremamente violenta, e poder caminhar nas ruas, sem medo de ser assaltada, é respirar liberdade. Reaprendi a fazer coisas que não fazia mais na minha cidade, como chegar na escola das crianças 30 minutos antes, estacionar e ler um livro tranquilamente dentro do carro, vidros abaixados. 

Adoro ir à medina de Túnis com minha câmera fotográfica e percorrer o burburinho de suas ruelas misteriosas. Quase sempre há a surpresa de um bom encontro ou o canto do imã da mesquita mais próxima. Um momento místico e de paz. 

 

Em novembro, viajei do norte ao sul com o fotojornalista Antonello Veneri, autor das fotos desta reportagem. Conhecemos pessoas e lugares extraordinários, construções berberes milenares da região de Tataouine, conversamos com mulheres instruídas que faziam a colheita de azeitonas em suas terras. Mais ao sul, perto da fronteira com a Líbia, cruzamos com tanques do Exército, barreiras policiais, alguns imigrantes e uma situação mais tensa. Pudemos constatar a crise que abala o turismo pelos enormes hotéis vazios e fomos “perseguidos” por guias turísticos locais em busca de alguns dinares, a moeda local.

A venda ilegal, nas margens das estradas, de combustível contrabandeado da Líbia gera empregos para muitos e a polícia faz vista grossa. Sempre perguntávamos às pessoas o que achavam da revolução. A resposta quase sempre era: “Só veio atrapalhar. Os turistas desapareceram, a comida está mais cara”. Hoteleiros, pequenos comerciantes e agricultores chegam a manifestar nostalgia dos tempos de Ben Ali.  O aniversário do levante, dia 14, antecipou e acirrou os protestos. Na noite de segunda para terça-feira, um manifestante morreu na capital.

“A vida econômica está mais difícil, os preços explodiram, a moeda está desvalorizada, a classe média não viaja mais ao exterior”, explica a historiadora e professora da Universidade de Túnis Sonia Temimi, de 45 anos.

“No regime de Ben Ali, os preços eram regulados. As pessoas se submetiam à falta de liberdade política em troca de um certo bem-estar econômico. Era a forma de controlar a população. O desejo de resolver seus problemas econômicos de forma imediata faz com que muitos esqueçam de como era difícil antes. A liberdade de poder falar, expressar-se, criticar, é a maior conquista da revolução. Ela proporcionou uma imensa liberação da energia neste país. Houve uma explosão de novos talentos e de criação artística e literária. Produzimos filmes, peças teatrais e pinturas que teriam sido censurados sob Ben Ali. E pela primeira vez em 60 anos de independência pudemos votar livremente. Isso é extraordinário”, conclui.

Como historiadora, Sonia pode acessar arquivos, escrever e falar livremente aos seus alunos sobre a história do país. “Antes da revolução, a polícia vinha toda semana controlar o que era dito em sala de aula e o que seria discutido em seminários.” Sonia abre um largo sorriso quando o assunto é o futuro da Tunísia. “Pela primeira vez na vida, sinto que o país me pertence, que eu posso decidir o meu destino. Teremos de 10 a 15 anos ainda complicados pela frente, mas sinto muita confiança nesta nova geração que está chegando. Me sinto muito, muito otimista.”

*Fotógrafa e dentista, Semmada Arrais nasceu em Fortaleza e mora em La Marsa, próximo a Túnis

Fonte: https://www.cartacapital.com.br/revista/986/o-jasmim-perfuma-a-tunisia

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