Obama e os charutos cubanos

Por Nirlando Beirão

Entusiastas celebram, mas também se inquietam com a anistia decretada por Obama

Em outubro, Barack Obama produziu a notícia que os aficionados do charuto mais temiam ouvir: o charuto cubano está liberado nos Estados Unidos, após 55 anos de rigorosa interdição. O desejo represado em tantas décadas de abstinência há de jogar o preço dos puros para a estratosfera.

Obama – de quem jamais se viu nenhuma adesão a tabacos e similares a não ser numa foto de sua recente viagem a Havana, farejando o aroma de um lancero – atropelou o Congresso predominantemente republicano, ainda aferrado aos tabus da Lei Helms-Burton, e anistiou, com o charuto, o apreciado rum made in Cuba, que lhe oferece perfeita parceria.

A longa noite da proibição aos produtos da ilha dos irmãos Castro traz, desde o início, uma hipocrisia. Quem a deixou escapar foi o escritor Arthur Schlesinger. O assessor de John Kennedy – o qual sempre fizera dos habanos um dos acessórios de seu charme natural – confidenciou que, às vésperas de decretar oficialmente o bloqueio econômico contra o governo revolucionário dos heróis da Sierra Maestra, o chefão da Casa Branca tratou de se estocar com caixas e caixas daqueles dobles coronas Hoyo de Monterrey, de José Gener, os seus favoritos.

John Kennedy foi um animal movido a feroz priapismo, no entanto um sucessor seu, Bill Clinton, é que acabou conferindo involuntariamente ao charuto o estigma de um escândalo sexual. Nem mesmo a encarniçada perseguição midiática movida pelos adversários a propósito do affair Monica Lewinsky, perseguição que quase terminou em impeachment, chegou ao requinte de denunciar ser a tal, digamos, ferramenta erótica de origem comunista.

O fato é que, embora o doutor Sigmund Freud, fumante compulsivo e decifrador de símbolos, tenha dito que às vezes um charuto é só um charuto, não há como não ver nas baforadas de um puro habano uma manifestação viril, erétil, de um evidente poder masculino.

Além de Kennedy, que o fazia às claras, e Clinton, que o escondia, estadistas e candidatos a isso gostam sintomaticamente de posar, em óbvia metáfora, prendendo entre os dedos ou entre os dentes os seus imponentes torpedos – não aqueles que fazem a guerra, mas os que convidam à confraternização.

Winston Churchill jamais se constrangeu em enfumaçar seu Gabinete de Guerra com consoladoras baforadas de seus maduros longos, de preferência Romeo y Julieta, enquanto definia a estratégia correta – de sangue, suor e lágrimas – para neutralizar os bombardeios da Luftwaffe de Hitler. Não há foto sua em que ele não exiba seu abrasivo acompanhante. A propósito, Hitler e seus sequazes eram fanáticos antitabagistas.

Um dos biógrafos calculou que Churchill fumou 250 mil charutos, de sua iniciação quando serviu em Cuba, aos 22 anos, até sua morte, aos 90 muito bem desfrutados (“sempre tenho Cuba nos meus lábios”, divertia-se). Acabou sendo brindado por uma distinção que envaideceria qualquer aficionado. Churchill passou a designar uma determinada bitola do charuto, de 7 polegadas, ou 18 centímetros, suficiente para uma degustação de mais de uma hora.

Nem mesmo Mark Twain (1835-1910), autor das mais entusiasmadas elegias em louvor do charuto, mereceu tamanha honraria. No máximo é hoje marca de um charuto produzido em Connecticut, nos Estados Unidos, com fumo procedente da Nicarágua.

A política promove, mas também queima o charuto. Aquele favorito de Kennedy, o Doble Corona da Hoyo de Monterrey, caiu em maldição aqui no Brasil, porque era o que circulava entre a corte provinciana da República das Alagoas – tendo o então presidente Collor e o tesoureiro PC Farias na comissão de frente.

Outro que encabeça o ranking dos verdadeiros connaisseurs – o Cohiba Lancero – vem carimbado com a fama de ser o queridinho do comandante Fidel Castro, antes um consumidor de uma dezena de charutos por dia, hoje um militante bem-comportado das fileiras antitabagistas.

Deve-se ao produtor José Gener, de Pinar del Río (o melhor tabaco de Cuba vem sempre dessa ponta ocidental da ilha, voltada para o Golfo do México), a marca Hoyo de Monterrey. Em 1867 – o que faz da companhia de Gener, depois estatizada pelos fumantes de Sierra Maestra, uma das mais antigas de Cuba.

Gener, filhos e netos especializaram-se em churchills e double corona, charutos grandes, porém de delicadeza aromática, potentes, envolventes, mas agradáveis a quem está em volta. Só nos anos 60, por sedução do mercado externo, é que a Hoyo de Monterrey ampliou seu portfólio para puros de menor tamanho.

O Cohiba é uma história mais recente, criação pós-revolucionária. Todo motorista de táxi, em Havana, há de contar que foi o comandante Fidel quem, intrigado com a particular fragrância do charuto que seu chofer mastigava, quis saber quem o produzia. O chofer conduziu-o a uma biboca de fundo de quintal. Fidel convenceu o artesão a produzir um charuto maior – o lancero – e transformou aquilo num enorme negócio.

A bem da verdade, Che Chevara teve também sua participação. Era ministro da Indústria e Comércio e insistia em criar um brand que trouxesse consigo a mística dos rebeldes de Sierra Maestra – claro lance de marketing, porque o governo cubano sabia que, com o êxodo dos industriais do tabaco, as marcas tradicionais iriam proliferar fora de Cuba, como de fato aconteceu.

 

Outros países aproveitaram o vácuo produzido pelo embargo para simular uma qualidade que jamais chegou aos pés dos autênticos cubanos. A República Dominicana, em especial, mas também a Nicarágua, a Costa Rica, o México, a Jamaica, Honduras, Panamá, os próprios Estados Unidos e – entre os altos e baixos das fábricas do Recôncavo Baiano – até o Brasil.

 

O pós-revolucionário Cohiba – cuja fábrica é uma surpreendente mansão em estilo clássico italiano no bairro de Laguito, Havana – é o único charuto que comprovadamente só pode ser de Cuba. Não aceita contrafações. Uma visita à manufatura do Cohiba pode desmentir mitos e expectativas. Não se assiste ali à folclórica cena de mulatas sestrosas enrolando as peças em cima de suas coxas. Esse procedimento só sobrevive, quando sobrevive, em pequenas unidades artesanais.

Outra constatação: como o controle de qualidade é muito rigoroso (mesmo em Cuba o preço de fábrica está à altura da categoria do produto), muitos charutos descartados vão parar em grandes caixas de papelão e depois, por um acordo informal com as autoridades, são distribuídos entre os trabalhadores da casa. Para consumo próprio – por assim dizer.

Na verdade, o charuto “falso” que vai acabar abastecendo o mercado negro, em transações sussurradas à sombra das vielas de Habana Vieja, é este, de ótima qualidade, que sai das fábricas oficiais.

Uma vez que o Cohiba sempre foi o xodó da casa, o já legendário lancero tem controle de qualidade muito acima do padrão. Seu tabaco vem de produtores exclusivos. As folhas são fermentadas três vezes. As capas têm de ser impecáveis. O que ajuda a entender, na facilidade de fluxo e na intensidade dos perfumes, como é que – com licença de Freud – uma baforada pode não ser só uma baforada.

Arquiteto de teorias, Freud foi vítima de uma delas ao ser diagnosticado com câncer na garganta. A tese de seu delirante discípulo Wilhelm Reich era mais ou menos essa: para fazer da psicanálise uma disciplina socialmente aceita, para retirar dela toda aspereza revolucionária, de desafio ao status quo, depurando, por exemplo, o que ela trazia de mais inquietante no quesito sexualidade.

Freud teve de negociar, de acochambrar, de engolir muito sapo. Consequência: câncer entalado na goela. Esqueceu-se Reich do detalhe banal de Freud ter fumado, a vida toda, 20 charutos mata-ratos por dia – raramente puros habanos, quase sempre intragáveis charutos bávaros. Inclusive, enquanto assistia seus indefesos pacientes no divã.

Freud fez parte dos charuteiros longevos. Morreu aos 83 anos. Groucho Marx, aos 86. O comediante George Burns, aos 100. O escritor Gay Talese, aos 84, continua cotidianamente levando seu charuto para passear. No seu antológico Walking My Cigar, para o número inaugural da revista Cigar Aficionado, Talese esposava a ideia de que, no caso do charuto, o prazer suplanta o risco. Parece fazer sentido.

Publicado originalmente em: http://www.cartacapital.com.br/revista/924/obama-e-os-charutos-cubanos

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