O Che passou aqui

Refazendo a “trilha revolucionária” de Guevara no sul da Bolívia, 50 anos depois de sua morte

por Nirlando Beirão

No dia 8 de outubro de 1967, o general Alfredo Ovando Candía, chefe das Forças Armadas da Bolívia, desmentiu os rumores de que o Che estivesse preso. Confirmou, isso sim, que um de seus companheiros de guerrilha tinha sido surpreendido na região de Vallegrande e se encontrava em poder dos batalhões de Rangers treinados pela CIA americana. Era Simeón Sarabia, boliviano. O governo de Fidel Castro tinha conhecimento de que o ex-ministro da Indústria estava na Bolívia, mas havia perdido contato com ele.

Na verdade, naquele dia, um dos mitos de Sierra Maestra e da Revolução Cubana, alquebrado, esquelético, maltrapilho, seu rifle pendendo sem ação de seu ombro, ferido por dois tiros após serem cercados, ele e seus derradeiros parceiros de armas, na ravina de Churo, por 1,8 mil soldados, padecia, de algemas e fortemente amarrado, na dilapidada escola para onde fora levado, na vizinha cidade de La Higuera.

Na manhã do dia 9, por determinação do general-presidente René Barrientos, foi fuzilado à queima-roupa. Só no dia seguinte a imagem nazarena do Che foi divulgada ao mundo, com a notícia de sua morte.

Os tempos mudaram, a Bolívia é hoje governada por Evo Morales e o Exército que dizimou o foco guerrilheiro se apressa, pela primeira vez, em participar, “ao lado das famílias dos antigos combatentes”, de uma homenagem à sua vítima. O vice-ministro da Coordenação, Alfredo Rada, anunciou o evento.

É a confirmação de que o país onde Che queria repetir Cuba não o tem como inimigo, mas com a mesma inspiração icônica destinada a um revolucionário romântico. A passagem frustrada de Guevara pela Bolívia acabou inspirando um empreendimento capitalista de bons resultados.

“La Ruta del Che” recupera, para turistas sem discriminação ideológica, momentos da empreitada insurrecional que terminou emblematicamente na figura do Che em frangalhos, faminto e deprimido. A jornada pode ser coberta em três ou quatro dias. Naturalmente, o elenco que se dispõe a palmilhar o rito quase religioso de veneração ao Che não compartilha da mesma cartilha dos devotos do Caminho de Santiago de Compostela.

La Higuera (A Figueira), no sul da Bolívia, é o início e o fim da jornada. É uma diminuta aldeia de menos de 130 habitantes, predominantemente da etnia guarani, a 150 quilômetros de Santa Cruz de la Sierra, capital da província, e 292 quilômetros de Sucre, capital administrativa da Bolívia. Fica numa região árida e desabitada, na qual os cactos abundam e os condores fazem circunvoluções em torno de cumes ancestrais.

O Che – que chegara a La Paz sob a identidade falsa de um empresário uruguaio na segunda metade de 1966 – pretendia instalar ali nas vizinhanças, no campo de Rancahuazu, um foco guerrilheiro a partir do qual, como uma labareda de liberdade, a rebelião iria incendiar o país, no mesmo padrão de contaminação espontânea que tinha sido bem-sucedida em Cuba.

A pequena fazenda em que Che e seus primeiros comandados se abrigaram não existe mais. Foi por lá que, no dia 31 de dezembro de 1966, apareceu o secretário-geral do Partido Comunista da Bolívia, Mario Monje, para conferenciar com Guevara.

Embora o governo do general Barri­en­tos estivesse longe de ser democrático, o PC boliviano havia saído da clandestinidade e gozava de certa liberdade. Monje considerou o plano de Guevara delirante, fora da realidade.

Publicada originalmente em: https://www.cartacapital.com.br/revista/973/o-che-passou-aqui

Trópico em Movimento © 2016 - 2019.

Campus UFPA - Rua Augusto Corrêa, 01 - Casa do Poema,

Bairro Guamá, 66075-110, Belém, Brasil

(091) 3201-7700

  • Wix Facebook page
  • Wix Twitter page
  • Wix Google+ page