O passado colonial invade a campanha presidencial francesa

Emmanuel Macron, segundo lugar nas intenções de voto, passou a terceiro depois de classificar a colonização de 'crime contra a humanidade'.

Quem, no ano passado, imaginava ver em 2017 mais uma campanha sem novidade com os rivais de 2012 (Sarkozy-Hollande) se enfrentando e repetindo o mesmo filme, se enganou redondamente.

 

A campanha de 2017 não pára de surpreender. Ela misturou todas as cartas. E trouxe novidades à cena francesa que nem o mais criativo roteirista seria capaz de imaginar.

 

Em entrevista à TV argelina, em Argel, Emmanuel Macron o candidato mais jovem, de 39 anos, qualificou a colonização de « crime contra a humanidade ».

Franceses saudosos da Argélia francesa, outros que preferem ver a França como o farol dos direitos humanos e um terceiro grupo que acha que a expressão foi, no mínimo, mal escolhida estiveram no centro do debate em torno da declaração de Macron, candidato à presidência pelo movimento que criou, « En marche ».

 

O eletrochoque provocado por essa declaração é prova de que a ferida das guerras coloniais ainda pode sangrar.

 

A França debateu a propriedade ou impropriedade da expressão para falar do passado colonial em todos os jornais, TVs e rádios por vários dias. Em editorial, « Le Monde » observou que o « crime contra a humanidade » se aparenta a um genocídio e é imprescritível. « Tomada no sentido jurídico, a declaração de Macron abriria a porta a possíveis processos na justiça reclamando reparações», ponderou o jornal de referência francês.

 

Os jornais franceses foram invadidos de reportagens, entrevistas com historiadores e artigos defendendo ou combatendo a tese de Emmanuel Macron que, em viagem à Argélia buscando adquirir uma estatura internacional, declarou :

 

« A colonização faz parte da história francesa. É um crime contra a humanidade, uma verdadeira barbárie. Ela faz parte do passado que devemos olhar de frente, apresentando nossas desculpas àqueles contra quem o cometemos ».

 

Um OVNI político

 

Imediatamente, ele caiu de segundo a terceiro nas intenções de voto para o primeiro turno da eleição presidencial em abril próximo.

 

Mas quem é Emmanuel Macron, o mais jovem candidato a presidente ?

 

Egresso do mundo das finanças ele foi diretor do Banco Rothschild. Ex-ministro da Economia no governo Hollande, nomeado em 2014, ele deixou o governo para fundar o movimento « En Marche » e se declarar candidado à presidência, sem nunca ter exercido um cargo eletivo. Os adversários de direita o veem como comprometido com o governo socialista que criticam. Os da esquerda, o apontam como ex-dirigente do Banco Rothschild, o que macula sua biografia para o eleitor de esquerda.

 

Considerado um OVNI por muitos observadores políticos, Macron é permanentemente cobrado para apresentar seu programa, que ele promete para março. Na França, todos os candidatos começam a fazer campanha com um livro-programa.

 

Até boatos sobre sua orientação sexual surgiram nas redes sociais. O fato de ser casado com uma professora 20 anos mais velha que ele, não impediu o boato de se alastrar. De maneira bem-humorada, em um de seus comícios, ele declarou que os boatos que o ligavam a Mathieu Gallet (o PDG da holding Radio France, que reúne várias rádios do serviço público de rádio) eram totalmente absurdos.

 

E acrescentou : « Como passo todos os momentos do dia e da noite com Brigitte (sua mulher e uma das coordenadoras da campanha), só pode ser meu holograma ». Ele fazia uma alusão bem-humorada ao holograma de Jean-Luc Mélenchon que apareceu num comício em Paris, enquanto o Mélenchon em carne e osso discursava em Lyon.

 

De direita e de esquerda

 

No início da campanha, Macron se apresentava como « nem de esquerda nem de direita », numa sutil posição oportunista. E ia crescendo nas pesquisas levando potenciais eleitores dos dois campos. Depois, passou a se reivindicar « de direita e de esquerda ».

 

O fato é que ele vai seduzindo um eleitorado ávido por novidades. Queridinho da mídia que lhe dá amplos espaços, Emmanuel Macron conseguiu renovar surpreendentemente a eleição presidencial francesa, por fugir de qualquer etiqueta.

 

Macron colhe eleitores nos dois campos do espectro político. Há quem se pergunte : «Emmanuel Macron pode ser considerado de esquerda» ? A resposta é um claro « não » para Jean-Luc-Mélenchon, do Parti de Gauche, que concorre com o movimento « La France Insoumise » aliado ao Partido Comunista Francês. Benoît Hamon, ganhador da primária socialista para surpresa geral, também não considera Macron um homem de esquerda.

 

Essa campanha presidencial, mudou radicalmente o panorama político francês e serviu para aposentar diversos políticos da geração mais velha.

 

Na primária da direita (em novembro de 2016) os eleitores mandaram para casa políticos experientes como Nicolas Sarkozy e Alain Juppé, dando a vitória ao candidato que aparecia como terceiro colocado nas pesquisas, François Fillon.

 

Á esquerda, os eleitores do PS escolheram este ano um outsider, Benoît Hamon, deixando os favoritos Manuel Valls e o ex-ministro Arnaud Montebourg fora de jogo. E pela primeira vez, um presidente em exercício não reapresentou sua candidatura, desgastado por promessas não cumpridas e um nível de desemprego que teima em se manter em torno de 10%.

 

A ferida aberta do colonialismo

 

O ex-presidente Nicolas Sarkozy (direita, Les Républicains) tinha reconhecido « faltas e crimes imperdoáveis » praticados pelos franceses na Argélia. Mas sempre se mostrou contrário a qualquer sentimento de contrição e pedido de perdão e sempre defendeu a lei de 2005 que reconhecia « aspectos positivos na colonização ». Segundo o cientista político Olivier Le Cour Grandmaison, « essa lei abjeta estabelece uma interpretação positiva do passado colonial ».

 

O socialista François Hollande reconheceu, em visita a Argel, « o sofrimento que a colonização infligiu ao povo argelino ». Mas, apesar de ser um homem de esquerda, não fez o passo que levaria ao pedido de perdão.

 

Entre os historiadores, alguns, como Benjamin Stora, dão razão a Macron. Ele lembrou que durante a Guerra da Argélia houve quem qualificasse o que se passava como « crime de guerra e crime contra a humanidade ».

 

Em entrevista ao jornal « L’Humanité » Le Cour Grandmaison lembra que, entre 1945 e 1962, o número de mortos nas colônias é estimado em um milhão de pessoas, bem mais que o conjunto dos civis, militares e resistentes franceses que morreram na Segunda Guerra (800 mil).

 

Para fechar esse capítulo dos crimes do colonialismo, recorro ao respeitado jornalista e escritor Henri Alleg, autor do hoje clássico « La Question », que denunciou a tortura na Guerra da Argélia.

 

Na entrevista exclusiva que fiz com ele para o livro « A tortura como arma de guerra, da Argélia ao Brasil », Alleg me contou :

 

« Existem textos clássicos da época da conquista da Argélia, em 1830, que contam como os soldados e oficiais franceses puderam esmagar o sentimento de revolta dos argelinos. São coisas que não se ensinam nas universidades nem nos liceus, infelizmente. E há também textos de oficiais franceses que escreviam a suas noivas ou namoradas, nos quais explicavam como conseguiam superar o sentimento de solidão ou mesmo de saudade. um deles diz: ‘Quando me sinto triste e solitário tenho sempre a possibilidade de mandar cortar a cabeça de três ou quatro árabes’. Existem muitos. Maupassant escreveu um livro sobre o que a conquista da Argélia trouxe aos franceses e conta como os franceses torturam os argelinos. É um livro clássico. Desses textos fala-se muito pouco. A colonização não teve somente aspectos positivos como dizem os livros escolares. A tortura, da qual não se falava na França, era um método de pessoas que pretendiam trazer a civilização ».

 

Uma petição foi colocada online pede à sociedade civil francesa o reconhecimento dos crimes coloniais cometidos pela França. Ela pode ser assinada no site mesopinions.com e no site do jornal « L’Humanité », l’humanité.fr

 

* Leneide Duarte-Plon é autora de « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado » (Editora Civilização Brasileira, 2016).

Publicado originalmente em: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-passado-colonial-invade-a-campanha-presidencial-francesa/4/37753

Trópico em Movimento © 2016 - 2019.

Campus UFPA - Rua Augusto Corrêa, 01 - Casa do Poema,

Bairro Guamá, 66075-110, Belém, Brasil

(091) 3201-7700

  • Wix Facebook page
  • Wix Twitter page
  • Wix Google+ page