Caminhos para novas práticas sustentáveis

Conhecimento, planejamento e tecnologia  podem traçar novos rumos na gestão de resíduos sólidos na Região Metropolitana de Belém. Conheça experiências que podem significar bons caminhos para uma cidade mais sustentável.

Para que uma sociedade sustentável seja uma realidade é preciso que esta reconsidere sua relação com o lixo que produz. Uma boa gestão dos resíduos sólidos deve contar com a participação do poder público e da sociedade Civil. No curso de extensão “Meio Ambiente e Resíduos Sólidos na Região Metropolitana de Belém – Uma abordagem Interdisciplinar”, realizado pelo programa interdisciplinar trópico em movimento conhecemos um pouco do que alguns alunos, no seu cotidiano particular ou profissional estão realizando para amenizar o problema do acúmulo de lixo e seu descarte inadequado. 

A economista e diretora de planejamento da Secretaria e Saneamento do Município de Belém (Sesan), Katia Rocha, tem experiência há mais de 40 anos no setor público, nas esferas municipal e estadual e é uma das alunas do curso de extensão. Ela está à frente da capacitação de profissionais dentro do setor em que atua.

Segundo ela, por não dispor de muito tempo de formação mais aprofundada no cotidiano profissional, resolveu se inscrever e incentivou que outros também se inscrevessem no curso. Ela conta que o setor de planejamento do órgão onde atua está consolidando o programa de qualidade na gestão de resíduos sólidos.

Katia diz que o curso além de aprofundar os conhecimentos acerca do pensamento teórico no assunto, também acaba por nivelar o conhecimento da equipe da Sesan, que é executora de políticas públicas nessa área na cidade.

“É uma oportunidade que não temos durante o expediente de fazer essa grande formação de conhecimento como também essa troca que é magnifica e que está acontecendo aqui nesse espaço. Casou uma necessidade urgente nossa com essa oferta neste momento que a gente está celebrando também convênio com a Universidade Federal do Pará para que eles façam a gestão do centro de integração do Aurá e prepare a gestão para ser repassada para os catadores daquela área”, revela Katia.  

Agente sociais diversos integrados na gestão de resíduos sólidos

De acordo com Katia, a Sesan vem desenvolvendo trabalhos em trono da coleta seletiva, educação ambiental, gestão de resíduos sólidos e inclusão das associações de catadores na economia da cidade. Porém, é preciso estar sempre repensando novas estratégias e reconsiderando a configuração das cidades. “Estamos estudando modelos alternativos tanto para a coleta seletiva como para resolver o problema da quantidade imensa de pontos críticos de deposição inadequada de lixo na cidade, que ainda não conseguimos controlar nem ter uma prática efetiva que envolva a comunidade para nos ajudar na fiscalização da deposição irregular”, destaca.

São mais de 600 pontos críticos e lixo na capital paraense, de acordo com Kátia, e ela conta que a Sesan vem desenvolvendo um projeto chamado Unidades de Recolhimento de Pequenos Volumes (URPV). Neste projeto, a Sesan tenta modificar o papel nocivo do “carrinheiro” (trabalhador informal que transposta lixo dos domicílios para qualquer lugar), para um papel efetivo e eficiente da deposição adequada dos resíduos nessas unidades de recolhimento que serão espalhadas pela cidade.

Mesmo com boas ideias, Katia diz que a Sesan precisa usar tecnologia aperfeiçoada para fazer controle de deposição do lixo. “É muito bom para nós que estudemos essas novas formas de controlar espaço urbano, tudo isso são modelos novos de atuação e de gestão”, diz.

Tecnologia a serviço da sustentabilidade

A tecnologia, por sua vez, pode ser grande aliada nessa empreitada. Claudio Afonso, do Laboratório de Tecnologias Livres (LabLivre), fala de sua experiência enquanto membro desse espaço, que se dedicada a promoção da cultura do software livre/hacker, à realização de cursos, palestras e desenvolvendo  plataformas colaborativas. Formado em redes de computadores, desde 2010, vem trabalhando com plataformas colaborativas para dispositivos móveis. Ele desenvolveu um sistema de gestão para a SESAN que funcionou de 2010 a 2011. Trabalhou também em projetos ligados à UFPA e a UNESCO.

“Desde meu trabalho em 2010 na Sesan, interessei-me pela temática dos resíduos sólidos, em especial com os REE - Resíduos Eletroeletrônicos, devido a minha área de formação, em função disso tenho um projeto de plataforma ambiental para a negociação dos REEs, sabendo do curso resolvi fazer para me capacitar melhor para desenvolver a referida plataforma”, conta Claudio.

De acordo com ele, o curso pode lhe dar auxilio a desenvolver esse trabalho. “Acredito que minha abordagem do ponto de vista da cultura hacker, da metareciclagem, do desenvolvimento de plataformas colaborativas pode auxiliar a lançar um novo olhar sobre o tema”, diz.

Claudio Afonso conta que o LabLivre vem desenvolvendo uma plataforma colaborativa de reuso e reciclagem de lixo eletrônico chamada ReusAR.  A plataforma consiste em apontar para as pessoas, por meio de um aplicativo, os locais mais próximos onde elas podem entregar os seus REE.

A ideia surgiu, de acordo com Claudio, em função do REE ser um tipo de lixo que não tem ainda nenhuma politica especifica funcionando em Belém e por seu alto grau de poluição.

Para ele, a deposição adequada de REE pode ofertar grande quantidade de REE para empresas ou associações interessadas nesse tipo de material, tudo através de um aplicativo para celular.

Outro ponto positivo do app é a possibilidade do envio de denúncias com fotos e geolocalizações de situações de dano ao meio ambiente, sendo uma plataforma resiliente a falta de conexão com internet. Mesmo em situações ou locais sem conexão o registro é realizado.

“Pretende-se incluir na plataforma outros recursos como um decibelímetro para detecção de locais com poluição sonora e o desenvolvimento de sensores ambientais para poluição do ar, fumaça de queimadas, umidade e temperatura em tempo real”, explica Claudio Afonso.

Pequenas ações

As pequenas atitudes também podem gerar transformação para uma mentalidade e cultura sustentável.  A procuradora do Município de Belém Heloisa helena Izola e a Bióloga, Potira Silva falam de suas experiências com relação à temática abordada no curso.

Potira diz que seu interesse pelo curso se deve pela afinidade com a temática. “Fiquei sabendo por uma amiga, que viu no Facebook e me marcou”, diz, acrescentando que “o curso ajuda muito como um acréscimo muito grande de conhecimento, tanto pessoal quanto profissional, pois quero seguir participando projetos nessa área”, afirma.

Ela conta que participou da implantação no condomínio onde mora, da coleta seletiva. Essa experiência resultou no seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de graduação.  “Confesso que sou nova nessa área, por isso estou correndo atrás de cada vez mais conhecer melhor. O curso está me ajudando muito nisso. Abrindo minha mente”, comemora.

Potira é técnica em pesquisa e investigação biomédica do Centro Nacional de Primatas (CENP). Ela conta que no seu local de trabalho foi formada uma comissão de coleta seletiva, que está na fase de implantação. “O local onde serão armazenados os materiais já está em reforma, e os funcionários já estão separando os recicláveis. Estamos na fase de implantação também de outra comissão, a de sustentabilidade. Nessa área vamos implantar a compostagem, dos restos de frutas da cozinha, as quais são destinadas como parte da alimentação dos animais, bem como a coleta e reaproveitamento de água da chuva para abastecer os galpões e placas de energia solar. Essa comissão já está formada, na fase de trâmites jurídicos. Temos também uma comissão de educação ambiental, em parceria com a SEMAS. Essa comissão já está formada e trabalhando. Eles catalogam toda a flora do nosso espaço, bem como recebem as escolas para visitação no CENP”,  comenta.

Heloisa Helena é procuradora do Município de Belém há 12 anos e diz que de “uns tempos para cá, vem tendo especial interesse nas questões ambientais”. “É um interesse pessoal, mas que também é aplicada à área profissional. No meu trabalho não é incomum, nos depararmos com pareceres referente a resíduos sólidos ou algo relacionado.  Na minha carreira eu atuo com a questão legislativa e o curso como é multidisciplinar, nos dá uma outra visão”, diz.

Ela conta que após o curso vem tentando implantar uma cultura de coleta seletiva no setor onde atua, e que pretende expandir para a secretaria como um todo.  “Eu espero que com os conhecimentos que estamos aprendendo possamos aplicar o máximo possível no nosso cotidiano”, afirma.  E acrescenta: “Na procuradoria podemos tentar propor mudanças na legislação para melhorar todo arcabouço legislativo do município, incluir nas leis e decretos medidas que visem ao gerenciamento de resíduos sólidos, tratamento do lixo, coleta seletiva, nas políticas de reciclagem”, destaca.

“Nesse curso, eu tenho tido a experiência de conhecer pessoas que têm contribuições interessantes, de acordo com a vivência de cada uma em relação à questão. Na turma tem um catador, tem técnicos da Sesan e outros setores. Tem experiência em debate, que é oriunda de todos os âmbitos. E Isso é muito enriquecedor”, conclui.  

Texto: Vitor Barros - Ascom Programa Interdisciplinar Trópico em Movimento

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