Quem faz mais pelo clima na América Latina?

Desde que Acordo de Paris passou a valer, mexicanos saem na frente na luta contra mudanças climáticas. Pequenos e disciplinados, Chile e Costa Rica também são destaque. Mas Brasil, maior poluidor, se afasta da meta.

Em seu primeiro ano de vida, o Acordo de Paris já passou por testes difíceis. Desde que entrou em vigor, em 4 de novembro de 2016, o pacto para evitar o aquecimento global perdeu um dos seus principais aliados, os Estados Unidos. E isso logo após 2016 virar recordista como o ano mais quente, segundo a própria Nasa.

Nos vizinhos ao país governado por Donald Trump, historicamente uma área de influência americana, há quem mantenha a agenda climática em dia, garante Pablo Vieira, diretor da NDC Partnership.

"México e Costa Rica estão na liderança", resume Vieira, à frente da iniciativa global para assessorar os países a baixar suas emissões, conforme prometeram no Acordo de Paris.

Para que a principal meta do pacto tenha sucesso - limitar a elevação da temperatura a 1,5°C até o fim deste século -, só há uma receita: reduzir drasticamente as toneladas de gases estufa liberadas na atmosfera. Cada país decidiu como participar dessa missão na chamada Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês).

Na América Latina, apenas Colômbia e Suriname ainda não ratificaram o Acordo. E o maior poluidor da região, Brasil, parece não estar rumo a um caminho mais limpo.

Os grandes poluidores

Da América Latina vêm cerca de 10% das emissões globais. Brasil e México são pesos-pesados desta balança: no ranking global dos poluidores, ocupam sétima e nona posição, respectivamente, ou mais da metade das emissões da região.

"Vemos sinais desastrosos vindos do Brasil, totalmente contra a corrente", diz sobre a política ambiental Eduardo Viola, pesquisador da Universidade de Brasília e autor do livro Brazil and Climate Change, Beyond the Amazon.

"Houve mais retrocessos que avanços, sem dúvida. O Congresso tem aprovado leis que contribuem para o aumento de emissões", afirma Rachel Biderman, diretora-executiva do WRI Brasil (World Resources Initiative), citando decretos e leis que reduzem áreas de conservação, estimulam a ocupação ilegal de áreas na Amazônia e flexibilizam o licenciamento ambiental.

No caso do Brasil, o fim do desmatamento é crucial para queda de CO2 - o que o país prometeu fazer em 2020, segundo sua NDC. "A taxa de desmatamento atual está 70% acima da meta de 2020", aponta Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. Apesar do recuo recente de 16% anunciado pelo governo, a situação é considerada crítica. "É uma queda que não nos recupera do pornográfico aumento das taxas de desmatamento dos últimos anos", diz Rittl.

A trajetória do México, por sua vez, é avaliada como positiva. "O México trabalhou anos na implementação de uma política nacional para impulsionar a economia de baixo carbono, a mais avançada entre os latinos", pontua Viola.

O país, que já cobra imposto daqueles que poluem mais, tem tudo para se tornar um polo mundial de difusão de boas práticas, afirma Vieira. Mesmo antes de assinar o Acordo de Paris, os mexicanos já sabiam quanto custaria a mudança para diminuir suas emissões - cerca de 1,3 bilhão de dólares. Uma conta que nenhum outro país da América Latina fez, afirma Vieira, da NDC Partnership.

Publicado originalmente: http://www.dw.com/pt-br/quem-faz-mais-pelo-clima-na-am%C3%A9rica-latina/a-41096828

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