Realismo Mágico ou Maravilhoso ?

 

Expressão que representa uma característica da critica literária latino-americana é realismo mágico que teve seu boom na década de 1960, onde a percepção de um efervescente e diferente “fenômeno de renovação ficcional, iniciado entre os anos 1940 e 1955, gerou o afã de catalogar suas tendências e encaixá-las sob uma denominação que significasse a crise do realismo, que a nova orientação narrativa patenteava”[1]. Dessa forma o realismo mágico “veio a ser um achado crítico-interpretativo que cobria a complexidade temática do novo romance e a necessidade de explicar, a passagem da estética realista-naturalista para a nova visão “mágica” da realidade.”[2]

 

A diferença básica entre o realismo que tomava forma na década de 1940, e o “modelo envelhecido do realismo dos anos vinte e trinta,”[3] foi o esgotamento do modelo mais antigo, visível em “clássicos regionalistas como La vorágine (1924) de José Estassio Rivera, ou Doña Bárbara (1929) de Rómulo Gallos, ou indigenistas como Raza de bronce (1919) de Alcides Arguedas ou Huasipungo (1935) de Jorge Icaza.”[4] As narrações previsíveis dos ideais autóctones ou telúricos da América Latina transformaram-se em “monótono folclorismo pitoresco sobre o llano, a pampa, a selva, etc.; os conflitos do homem na sua luta contra a natureza ou as forças da opressão social perdiam o impacto inicial devido a um simbolismo estereotipado.”[5]

Esse era o cenário do realismo da primeira metade do século XX, que estava sendo confrontado pelo realismo produzido por uma nova construção do gênero romance na América Latina e que, na década de 1960, seria reconhecido internacionalmente. Os precursores do rompimento com o discurso realista-regionalista foram: Yawar fiesta (1941), de José María Arguedas; Ficciones (1944), de Jorge Luis Borges; El señor presidente (1946) e Hombres de maíz (1949), de Miguel Angel Asturias; Al filo del agua (1947), de Agustín Yáñez; El reino de este mundo (1949) e Los pasos perdidos (1953), de Alejo Carpentier; La vida breve (1950) de Juan Carlos Onetti e Pedro Páramo (1955), de Juan Rulfo.[6] O novo realismo buscava e praticava modificações técnicas para produzir histórias heterogêneas da realidade, onde os primeiros quinze anos de construção desse novo cenário continham as sementes das “formas revolucionárias que nos anos sessenta e setenta atestam o lúdico, o paródico e o questionamento sistemático do gênero romanesco.”[7] Entre as características mais pulsantes,  que podem ser visualizadas nos romances do novo realismo, podemos citar, “a desintegração da lógica linear, de consecução e de consequência do relato, através de cortes na cronologia fabular, da multiplicação e simultaneidade dos espaços de ação”.  

 

A crítica literária da época denominou esse novo realismo de “mágico” e essa nomenclatura tornou-se famosa até os dias atuais. Contudo, existe também a expressão realismo maravilhoso, trabalhada por Irlemar Chiampi, em sua tese de doutorado, defendida na Universidade de São Paulo, chegando a uma definição de realismo maravilhoso. O primeiro argumento da linha que defende a expressão “realismo mágico”, é que o “ato de criação poética é um mistério insondável, tanto quanto as próprias origens da linguagem.”[8] Entretanto, não é função da poética a descrição do ato de criação verbal. Logo, magia e criação poética são “fenômenos demasiadamente complexos e de difícil estruturação, qualquer paralelo entre o modo de conhecimento, intenção ou ritual mágico com a poesia é inoperante.”[9] Em relação à utilização de mitos, tradições ou situações de conteúdo mágico nos romances do novo realismo não é preciso utilizar o termo “magia” para adjetivar “o elenco de motivos, que as culturas narrativas proveem à literatura de ficção.”[10]Além disso, mesmo que se reconheça a potencialidade de criação do novo realismo latino-americano:

O seu desejo de criar, “magicamente”, um referencial pela nomeação, se submete irremediavelmente, ao código de uma língua emprestada, para incorporar o real americano ao repertório ocidental.  A paixão adâmica, (legítima como linguagem) vem despojada da intenção mágica, por tal contingência histórica, e só a convoca para atender, mais uma vez, à exigência forânea da moda, do exótico americano.[11]

O termo maravilhoso  tem vantagens lexicais para designar o novo realismo latino americano. Lexicalmente, o termo maravilhoso não é uma negação ao natural, é o extraordinário, insólito, “o que escapa ao curso ordinário das coisas e do humano.”[12] Contém a maravilha, “do latim mirabilia, ou seja, “coisas admiráveis” (belas ou execráveis, boas ou horríveis), contrapostas às naturalia. Em mirabilia está presente o “mirar”: olhar com intensidade, ver através.”[13] Além disso, o verbo mirare faz parte da etimologia da palavra milagre  e de miragem. Nesse sentido, o maravilhoso:

Recobre uma diferença não qualitativa, mas quantitativa, com o humano; é um grau exagerado ou inabitual do humano, uma dimensão de beleza, de força ou riqueza, em suma, de perfeição, que pode ser mirada pelos homens. Assim, o maravilhoso preserva algo do humano, em sua referência. A extraordinariedade se constitui, da frequência ou densidade com que os fatos ou os objetos exorbitam as leis físicas e as normas humanas.[14]

Outro entendimento do termo maravilhoso contrapõe-se diretamente ao humano: “é produzido pela intervenção dos seres sobrenaturais.”[15] Seria um não pertencimento a ordem normal, da natureza dos objetos e da realidade. Fazem parte de um contexto que não é o humano e nem o natural e por isso não pode ser explicado racionalmente. Incorporado ao novo realismo do romance latino americano, o maravilhoso possibilita a construção teórica sobre a “forma discursiva do realismo maravilhoso, como análise estilística da retórica construída para estabelecer as ‘passagens’ de um significativo a outro.”[16] Há no realismo maravilhoso a possibilidade de comunicar a realidade local, pela interação bem sucedida entre o social e o cultural, onde o racional e o irracional, são sujeitos produtores de sentidos, em patamares de igualdade.

 

Tematicamente, há na categoria a renovação ficcional, onde a representatividade, “a capacidade do romance de expressar um espaço cultural, uma sociedade, uma problemática histórica, com uma perspectiva não documental, mas integradora das várias faces do real,”[17] é uma característica marcante; e a experimentação, visualizada como “a prática de técnicas narrativas audazes ou renovadoras, com relação ao envelhecido instrumental do realismo-naturalismo,”[18] marcam os romances dessa categoria literária. A ficção do novo romance, produzido na América Latina a partir de 1940 e que viveu uma expansão mundial na década de 1960, torna-se um exercício de autoconhecimento, representativo da “consciência da dimensão histórica do homem latino-americano.”[19]

Dentro de um contexto pós-colonial, o realismo maravilhoso sugere a descentralização não apenas na América Latina, é uma tendência que tem como objetivo desestabilizar o discurso dominante, que costuma não escutar as vozes marginalizadas e esquecidas. Para Lopes,[20] no contexto ficcional o realismo maravilhoso, permite experimentar novos pontos de vista que transbordam as barreiras do real, além de violar os padrões realistas de representação literária (ao naturalizar características tidas como sobrenaturais), pois não há dúvida sobre o insólito, contudo são acontecimentos cotidianos.  A pesquisadora considera que essa vertente literária tomou força com facilidade na América Latina, pois foi uma ferramenta eficiente, que ajudou a unir a razão e a superstição, em um período que as ditaduras militares estavam em seus ápices, no continente sul-americano, fato esse que acabou transformando a palavra escrita em mais uma forma de resistência.

[1] CHIAMPI, Irlemar. O realismo maravilhoso: forma e ideologia no romance hispano-americano. São Paulo. Perspectiva, 2012, p 19.

[2] Ibid, 19. 

[3] Ibid, 19.

[4] Ibid, 19.

[5] Ibid, 19.

[6] Ibid, 20.

[7] Ibid, 20.

[8]  Ibid, 47.

[9] Ibid, 47.

[10] Ibid, 47.

[11] Ibid, 47.

[12] Ibid, 48.

[13] Ibid, 48.

[14] Ibid, 48.

[15] Ibid, 48.

[16] Ibid, 48.

[17] Ibid, 135.

[18] Ibid, 135.

[19] Ibid, 136.

[20] LOPES, Tania M. A. Realismo mágico: uma problematização do conceito. Vocábulo, revista de Letras e Linguagens Midiáticas.  ISSN  2237-3586. Centro Universitário Barão de Mauá. SP, p 9.

Trecho da dissertação “Sincretismo Religioso no Romance Do Amor e Outros Demônios, de Gabriel García Márquez”, de Lucila Vilar. Defendida em 2015 no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião na Universidade do Estado do Pará.

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