Superar o lulismo para uma nova alternativa

O projeto de Lula parece esgotado, apesar de sua importância histórica. Um novo projeto exige relançar reformas estruturais e fugir do eleitoralismo

O presente artigo é escrito em reflexões. Esta é a parte 2 de 6. Se quiser, clique aqui para ler ou reler a primeira parte do artigo.

À primeira vista, pode parecer inapropriado e cruel examinar as insuficiências da lulismo no momento em que ele é arrancado do governo por um conluio das elites, e em que o próprio Lula está ameaçado de prisão arbitrária e injusta.

Mas a impressão é falsa. Primeiro, porque a crítica é a melhor homenagem que se presta aos processos de transformação aos quais nos sentimos ligados, intelectual ou afetivamente.

Enxergar seus erros, superá-los, é permitir que estes processos não se percam no tempo, mas passem o bastão e re-existam, no bojo do novo que precisa surgir – e também receberá, um dia, a merecida crítica.

Segundo, porque uma visão dialética do golpe implica ir além da denúncia das elites. Elas sempre buscarão derrubar governos que ameaçam sua dominação. Cabe investigar por que foram capazes; que debilidades exploraram; como evitar que tais elas se repitam.

O objetivo deste breve artigo não é, evidentemente, fazer um balanço do lulismo – mas jogar luz sobre duas de suas características. A primeira é a recusa às reformas estruturais, a tentativa permanente de abrir espaço e conquistar vantagens para as massas populares no interior do status quo.

A outra é a preferência pelos acordos institucionais, pelos arranjos da velha política, diante das novas formas de mobilização horizontal e pela base, cada vez mais presentes e efetivas.

Colocar o foco sobre estas duas opções não é fortuito. É a partir da crítica a elas que podem surgir, de imediato, a compreensão sobre por que nos tornamos tão vulneráveis e os caminhos para enfrentar com eficácia as ameaças implícitas no golpe; no médio e longo prazo, visões sobre um novo projeto de superação do capitalismo.

A recusa às reformas estruturais não é uma característica exclusiva do lulismo. Relaciona-se a uma característica peculiar da ordem neoliberal: ela exige submissão completa dos governos a seu programa; mas esta essência totalitária é disfarçada por uma aparente rotatividade no  poder.

Em países como França, Itália, Espanha e Portugal, a agenda de ataque aos direitos sociais foi protagonizada por partidos “socialistas”. Em outros, como Estados Unidos e Inglaterra, os conservadores (Ronald Reagan e Margareth Thatcher) iniciaram as contra-reformas, mas elas foram alegremente continuadas por governantes supostamente à esquerda (Bill Clinton e Tony Blair).

No plano geopolítico, a diluição das diferenças é ainda mais perfeita. Na virada do século, Blair foi o grande aliado de George W. Bush, na tentativa de impor uma ordem imperial que desconhecia a própria ONU. Hoje, o “socialista” francês François Hollande chega a ser mais agressivo que Barack Obama nos esforços de destruição de Estados nacionais, em nome da “guerra ao terror”.

Neste cenário de devastação – tantas vezes esquecido nas análises feitas no Brasil – o lulismo manteve, até, alguma ousadia. Embora tímidas, as políticas de redistribuição de renda (expressas pelo Bolsa Família, pela ampliação dos direitos previdenciários e pelo aumento real do salário-mínimo) foram praticadas na contramão de um mundo que ampliava aceleradamente as desigualdades.

A política externa voltada para a América do Sul e os países emergentes rompeu um cacoete de submissão aos Estados Unidos e favoreceu a criação dos BRICS, talvez a novidade geopolítica mais importante das últimas décadas.

Mas estas audácias, tão sintônicas com a alma inquieta e criativa de Lula, jamais foram acompanhadas por reformas que tornassem duradouras as mudanças.

O poder das elites manteve-se intacto: no controle exercido pelos bancos sobre as finanças públicas; no sistema político caquético e estruturalmente corrupto; nas comunicações de massa dominadas por um oligopólio arcaico; nos Orçamentos da União, Estados e Municípios colonizados pelas grandes empreiteiras; na acomodação à letargia de um empresariado decadente e na ausência de um esforço de reindustrialização planejada; num modelo agrícola sempre baseado na devastação social e ambiental do agronegócio.

Estas ausências emparedaram e terminaram condenando o lulismo. Em 2013, quando rompeu-se o antigo consenso e uma parcela expressiva da opinião pública mobilizou-se por serviços públicos, ele não teve forças e ou vontade para ampliar os investimentos sociais e em infraestrutura urbana.

Em 2014, quando a crise internacional agravou-se, ele viu-se refém de uma elite empresarial que embolsava as isenções fiscais sem nada devolver.

Em 2015, quando o cerco se fechou e surgiu o pretexto do impeachment, ele tinha as mãos amarradas tanto por uma mídia em pressão total para derrubá-lo quanto pelo desconcerto de sua antiga base de apoio – que se viu traída pelo “ajuste fiscal” de Dilma.

Compreender esta insuficiência não será necessário apenas no futuro, quando a força do golpe se esgotar e surgirem novas oportunidades para um governo de esquerda. É preciso recuperar, desde agora, o exercício esquecido de refletir sobre as estruturas do país e sobre os caminhos para transformá-las.

Uma nova cultura de esquerda precisa retomar o esforço e prazer de projetar futuros comuns – tão esquecido, nos últimos treze anos, em nome do pragmatismo, do cálculo eleitoral e dos acertos de cúpula.

Publicado originalmente em: http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/superar-o-lulismo-para-uma-nova-alternativa

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