"Temos duas educações: uma para a elite e outra para o povo"

Por Marcos de Aguiar Villas-Bôas

Para especialista, escolas brasileiras são de má qualidade ou falham em educar integralmente, ensinando o pensamento crítico

Dora Incontri é jornalista pela Cásper Líbero, mestre, doutora e pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP, sendo hoje uma das maiores autoridades do País na defesa de uma grande reforma da educação que considere o ser humano em sua integralidade, proposta baseada em autores como Comenius, Jean-Jacques Rousseau e Johann Heinrich Pestalozzi, objeto de suas pesquisas acadêmicas.

A sua proposta educacional, que vem procurando aplicar na Universidade Livre Pampédia, da qual é coordenadora geral, envolve, por exemplo, uma perspectiva interdisciplinar, o desenvolvimento da espiritualidade e a autonomia do ser.

CartaCapital: Você poderia falar um pouco sobre a Universidade Livre Pampédia e a influência de Comenius?

Dora Incontri: Comenius foi um educador e pensador visionário do século XVII, que pretendia uma educação universal, integral e plural. Tinha um projeto de paz mundial, foi o idealizador de um órgão internacional pela paz, portanto, um precursor da ONU, e queria também uma língua internacional. Zammenhof se inspirou nele para criar o Esperanto.

A Universidade Livre Pampédia se pretende um espaço alternativo de educação, em nível superior, cujo objetivo é favorecer vivências pedagógicas diferentes para adultos e ao mesmo tempo divulgar ideias de transformação pedagógica e social.

A integralidade e a interdisciplinaridade propostas por esse projeto de Universidade Livre é inspirada em Comenius; assim, também inclui a dimensão espiritual do ser humano. Ou ainda, inclui dar voz às diferentes correntes de pensamento – tradições espirituais diversas, vertentes filosóficas espiritualistas ou materialistas – num diálogo aberto e aprofundado.

As Universidades convencionais têm guetos ideológicos onde não se pode penetrar com ideias diferentes – o pesquisador é obrigado a direcionar suas produções dentro da camisa de força imposta pelo orientador, pelo departamento, pelo grupo a que o pesquisador pertence. Não há liberdade de pensamento e de produção. É tudo muito engessado e fechado. Por isso, a ideia de uma Universidade Livre.

Além disso, eu trabalho com formação de educadores há muitos anos e percebi que só a aprendizagem de teorias de uma educação diferente da tradicional não adianta. É preciso que as pessoas experimentem por si mesmas, como alunos-sujeitos, uma educação alternativa, para poderem praticar ideias novas.

CC: Como descobriu Comenius, quem dá, inclusive, nome à sua editora?

DI: Quando estava fazendo minha dissertação de mestrado na USP, sobre o educador suíço Pestalozzi, pesquisei na Alemanha e na Suíça e me lembro que um professor da Universidade de Nurembergue me disse: “se você quiser entender Pestalozzi, leia Comenius.”

Eu nunca tinha ouvido falar de Comenius. E conforme fui lendo suas obras, fui ficando encantada com sua atualidade, com sua profundidade. Hoje, quando se fala brevemente em Comenius nas faculdades de Pedagogia no Brasil, costuma-se apresentá-lo, de modo superficial, como pai da didática.

 

No entanto, suas ideias são muito mais amplas e não se trata de um conceito reducionista de didática; envolvem um conceito de ser humano integral e integrado, uma concepção de educação universal e permanente, que deve realizar o ser humano em suas dimensões cognitivas, morais, políticas, afetivas, sociais e espirituais.

Publicado originalmente: https://www.cartacapital.com.br/blogs/vanguardas-do-conhecimento/temos-duas-educacoes-uma-para-a-elite-e-outra-para-o-povo

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