"Um governo socialista não pode se submeter à lógica clientelista"

O que diferencia um governo popular é o método de gestão, diz Luiza Erundina, candidata à prefeitura de São Paulo, no 'Jogo de Carta'

por Mino Carta e Rodrigo Martins

Primeira mulher a assumir a prefeitura de São Paulo, em 1989, a deputada federal Luiza Erundina volta a disputar o cargo nas eleições deste ano, pelo PSOL. Está impedida, porém, de participar dos debates eleitorais por conta de uma nova lei, tramada pelo ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, recordista de inquéritos da Lava Jato e seu notório desafeto.

A sociedade tem muito a perder. Aos 81 anos, Erundina demonstra uma fé inabalável no poder de transformação da política com participação popular. Em entrevista ao programa Jogo de Carta, transmitido ao vivo pelo site de CartaCapital na terça-feira 16, não titubeou ao falar sobre o golpe contra Dilma Rousseff, a “traição” de Marta Suplicy ao PT e explicar como pretende estabelecer uma aliança com o povo para governar.

“Um governo socialista não pode se submeter à lógica clientelista.” Confira, a seguir, os principais trechos da conversa. A íntegra, em vídeo, está em www.cartacapital.com.br.

Jogo de Carta: O prefeito Fernando Haddad parece um tanto confuso ao analisar o processo contra Dilma Rousseff. Ora considera a palavra golpe um pouco dura, ora diz que foi golpe, sim. A senhora tem alguma dúvida?

Luiza Erundina: Não, absolutamente. Duro é o próprio golpe, e não a palavra. Lastimo que alguém com o nível de formação acadêmica do Haddad ainda tenha dúvida sobre o que ocorreu. Foi uma violação da soberania popular, resultado da conspiração de alguém que só se elegeu vice-presidente graças à sua composição na chapa com Dilma.

JC: O que significa esse golpe?

LE: A perda de uma conquista preciosa, que custou caro ao povo brasileiro. Custou vidas humanas, torturas, desaparecimentos forçados. A ferida ainda sangra para os familiares que não sabem onde estão os restos mortais de seus parentes, até porque não se revelou toda a verdade sobre a ditadura.

Mesmo com uma democracia mitigada, como foi a nossa, é uma perda. Nossa Constituição tem menos de 30 anos e foi remendada mais de 80 vezes. É imprevisível o tamanho dessa derrocada, a ameaçar o que se construiu em três décadas.

JC: O Parlamento vive uma situação insólita. Dilma está sendo deposta por alegadas irregularidades na gestão fiscal. Quem conduziu todo esse processo foi o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, recordista de inquéritos na Operação Lava Jato. Não há, porém, qualquer previsão segura de quando o plenário da Câmara vai analisar a cassação do mandato dele.

 

LE: Ele está sendo sustentado pelo presidente interino, que teme uma possível delação. Cunha sabe muita coisa sobre aqueles que deram o golpe ou dele se beneficiaram. Na verdade, essa turma quis tirar Dilma também para coibir os trabalhos da Lava Jato. Outro dia, li uma curiosa notinha de jornal. Cunha teria dito: todos são meus amigos; um virou presidente, três são ministros e eu estou sozinho. É uma ameaça velada.

 

JC: Por que tão poucos deputados resistiram a Cunha?

 

LE: Ele tinha, ainda tem uma maioria sob seu controle. Cunha tem muito dinheiro, bancou a campanha de muita gente. Tornou-se presidente da Câmara pagando caro pelo mandato, literalmente. Fazia o que queria. Chegou ao extremo de pautar matérias e, quando o resultado não lhe convinha, colocava para votar de novo.

 

Uma minoria resistia, denunciava. Em uma dessas ocasiões, nos rebelamos e fomos para cima da mesa. Sentei na cadeira dele em protesto. Não adiantou. Ele reuniu o colégio de líderes, retomou a sessão e aprovou a matéria.

 

JC: Cunha deve gostar muito da senhora...

 

LE: Sim (risos), por isso fez essa lei para impedir minha participação nos debates de tevê. Um ano antes das eleições, eles criaram o seguinte dispositivo: partidos com menos de dez deputados federais ficam de fora dos debates, a menos que a maioria dos demais candidatos concorde em abrir espaço.

 

É uma clara retaliação ao PSOL, que teve protagonismo na luta pela cassação do seu mandato. O partido apresentou uma ação de inconstitucionalidade no Supremo, que deve ser julgada na próxima quarta-feira 24 de agosto, mas a TV Bandeirantes já me excluiu de antemão do primeiro debate, previsto para a segunda 22. Não dava para esperar dois dias?

Leia a entrevista na integra aqui: http://www.cartacapital.com.br/revista/915/governo-socialista-nao-pode-se-submeter-a-logica-clientelista

 

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