Uma Universidade Alternativa na Romênia

No maior país do Sudeste da Europa, uma instituição rompe os paradigmas clássicos de aprendizagem e avaliação. Que ética, métodos e etapas de ensino propõe?

 

Por Alex Bretas

 

A Universidade Alternativa (Universitatea Alternativă) é um espaço de aprendizagem fundado em 2008 por jovens ativistas educacionais do maior país do sudeste europeu. A iniciativa é uma evolução do CROS  — Centro de Recursos para Organizações Estudantis – , organização criada seis anos antes e cuja pauta central era a defesa da aprendizagem centrada no estudante nas universidades da Romênia. Num país que por muitos anos viveu sob a tirania de um ditador, o movimento que a CROS ajudou a incitar chegava a até mesmo advertir ironicamente que Ceausescu — o tirano que permaneceu 22 anos no poder — não estava morto: ele lecionava nas salas de aula de educação superior. Sediada em Bucareste, capital da Romênia, a Universidade Alternativa nasceu bebendo dos caminhos norteadores desse movimento: “autonomia e confiança em vez de controle, diversidade e personalização ao invés de padronização e pensamento crítico em vez de doutrinação”.

O sonho dos fundadores e de muitos que se juntam à universidade não é pequeno: revolucionar a educação na Romênia. Como me disse Traian Brumă, um dos criadores do projeto e que agora quer escrever um livro sobre como jovens podem propor espaços de aprendizagem transformadores, existem dois objetivos educacionais básicos: ajudar as pessoas a serem felizes e mudar o mundo. É isso que se espera de quem decide entrar na Universidade Alternativa.

 

A fim de alcançar esses dois objetivos, a universidade aposta em quatro princípios que conformam sua filosofia educacional: autonomia, comunidade e colaboração, impacto na sociedade e ambiente de aprendizagem. No que se refere aos valores da comunidade, eles podem ser sumarizados em 6 itens, de acordo com o site do projeto:

 

Valorize sua liberdade;

Aprenda o tempo todo;

Colabore autenticamente;

Desafie-se até o fim;

Seja gentil consigo e com o outro;

Divirta-se como uma criança.

Em termos de estrutura, a Universidade Alternativa configura-se a partir de um caminho dividido em quatro fases de desenvolvimento: exploração, ação, transição e maestria. É comum que os alunos concluam esse trajeto em três anos, mas raramente de forma certeira e linear. As fases são vividas de maneira personalizada por cada estudante, os quais podem contar com o apoio constante de coachs, mentores de diferentes áreas e sessões de aconselhamento ofertadas por colegas mais experientes.

Autonomia

Aconselhamento em aprendizagem autodirigida

Sessões de aconselhamento (14 em média, com duração de 1 hora e meia cada) em que alunos que já estão há pelo menos um ano na universidade apoiam os estudantes mais novos no processo de assumir responsabilidade pela sua própria educação e aprender a aprender. Os alunos que oferecem as sessões passam por um programa de formação antes.

 

Coaching

Processo individual e não diretivo que ajuda as pessoas a alcançarem seus objetivos pessoais e profissionais. Sempre que algum estudante manifesta interesse de ser apoiado por um coach, a equipe da universidade o ajuda a encontrar um profissional parceiro que se ajuste às suas necessidades. As duas fases em que mais se recomenda aos alunos fazerem coaching são as etapas de ação e maestria.

 

Mentoria

Processo em que um profissional mais experiente guia o estudante e o ajuda a desenvolver suas habilidades. O mentor oferece novas perspectivas, fontes de conhecimento e acesso a recursos e experiências de aprendizagem relevantes ao mentorado. Os mentores na Universidade Alternativa precisam ter no mínimo cinco anos de experiência profissional e, a qualquer tempo, podem ser escolhidos pelos alunos. Geralmente se recomenda a mentoria durante a fase de transição.

 

Apoio na construção de uma marca pessoal e de uma rede de contatos

A criação de uma marca pessoal e o cultivo de uma forte presença online e offline são aspectos muito valorizados na universidade. Há um workshop oferecido periodicamente sobre esse tema e os alunos são encorajados a criar novos hábitos como manter um portfólio atualizado, um diário de aprendizagem e um blog, além de participar de eventos e ser ativo nas mídias sociais.

 

Comunidade e colaboração

Comunidades de prática

São equivalentes aos diferentes departamentos ou faculdades de uma universidade tradicional. De acordo com o site da Universidade Alternativa, são quatro as comunidades de prática atualmente existentes: empreendedorismo (yIncubate), comunicação e novas mídias (NewMedia School), educação (.edu) e liderança e gestão (SyncerSchool). As comunidades gerem a si mesmas e os alunos que integram cada uma delas reúnem-se anualmente para validarem o “currículo”, isto é, os tópicos que gostariam de aprofundar em cursos, treinamentos, grupos de estudo e reuniões de compartilhamento. Esses tópicos somam-se ao currículo já oferecido pela universidade. Cada comunidade oferece possibilidades distintas para que os estudantes desafiem-se em suas áreas de atuação — por exemplo, a NewMedia School promove hackathons com projetos reais e a .edu estimula os alunos a visitarem escolas alternativas e a facilitarem treinamentos em educação.

 

Cada aluno pode ser parte de uma ou mais comunidades e cada comunidade conta com um núcleo de pessoas (3 a 7 membros) que garantem o bom andamento das atividades — desde criar um ambiente de aprendizagem produtivo até cuidar das interações online. Esse núcleo participa de um curso sobre construção de comunidades e a arte de anfitriar encontros.

 

Três referências teóricas embasam a proposição desse dispositivo de aprendizagem: a noção de comunidades de prática de Etienne Wenger, o conectivismo de George Siemens e o modelo da educação democrática.

Publicado originalmente em: http://outraspalavras.net/destaques/uma-universidade-alternativa-na-romenia/

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