Um Ocidente fraturado em um mundo pós-ocidental

É possível que o isolacionismo de Trump será o fim da ordem global atual. Cabe às potências em ascensão criar um sistema internacional novo e mais democrático

Por Oliver Stuenkel

A impressionante vitória de Donald Trump gerou um pânico global sem precedentes na era da Internet, levando a uma miríade de análises sobre as implicações para os Estados Unidos (por exemplo, o excelente artigo de “A Time for Refusal”, de Teju Cole) e o mundo (How the West may soon be lost, de Martin Wolf). Contudo, para compreender o que realmente significa uma presidência de Trump, é necessário analisar as consequências individualmente para avaliar suas probabilidades e articular maneiras de responder a elas.

1) Implicações para a democracia dos EUA

 

Na esfera doméstica, muitos acreditam que a eleição de Donald Trump representa uma ameaça real às instituições dos EUA e à sua democracia como um todo. Além de enfraquecer o tecido social da sociedade norte-americana e atacar as minorias não-brancas, vangloriando-se de agressões sexuais contra mulheres e zombando de pessoas com deficiência, os ataques verbais sistemáticos de Trump contra o Judiciário, suas ameaças de processar jornalistas e alusões à fraude eleitoral comprometeram significativamente a cultura democrática nos EUA.

 

Mesmo se Trump atenuasse sua retórica e governasse de forma moderada, a campanha já aprofundou divisões e os EUA levarão tempo para “curar as feridas“, como o próprio presidente eleito reconheceu após sua vitória. No entanto, apesar dos danos maciços causados, a democracia dos EUA provavelmente sobreviverá, considerando a robustez de suas instituições e um conjunto complexo de freios e contrapesos.

2) Implicações para a democracia em uma escala global

 

Tanto os governos como os cidadãos ao redor do mundo esperavam que os eleitores norte-americanos punissem Trump em 8 de novembro. Embora a campanha já tenha afetado negativamente o ‘soft power’ dos EUA, a vitória eleitoral de Trump reduzirá ainda mais a atratividade dos EUA de forma geral. Ainda que o ‘soft power’ seja difícil de medir e dependa de diversas outras coisas além do governo, uma consequência inicial será uma maior dificuldade de defender a democracia em outras partes do mundo. Vale ressaltar que o Brexit e Trump não ocorreram em países pequenos com visibilidade limitada. Pelo contrário, aconteceram nas duas democracias mais antigas e maduras do mundo, que – apesar de todas as críticas – desempenharam um papel extremamente importante para a democracia no mundo.

Em um momento em que os desafios globais multiplicam-se e um deslocamento de poder para a região da Ásia-Pacífico, Brexit e Trump são prejudiciais aos interesses estratégicos ocidentais, uma vez que reduzem o seu peso político e a sua capacidade de moldar os assuntos globais em um mundo pós-ocidental. A ascensão da política “pós-fato” e identitária ameaça minar a principal vantagem do Ocidente em relação a uma China em ascensão: sua ruidosa, mas, em última instância, moderada democracia estabilizadora, sua aceitação da diversidade e da globalização e sua capacidade de integrar migrantes de todo o mundo.

Democracias agora são vistas como fonte de mais imprevisibilidade do que regimes autoritários. Quanto mais tempo esse cenário durar, mais difícil será convencer outros países de que defender a governança democrática no mundo é tanto moralmente quanto estrategicamente vantajoso. Da mesma forma, quanto mais fortes as correntes anti-islâmicas tornam-se nas democracias ocidentais, mais difícil será reivindicar a superioridade moral e criticar governos na China, em Mianmar e em outros lugares pela forma como tratam suas minorias religiosas.

Populistas no controle de governos em Washington e Londres provavelmente fortalecerão políticos semelhantes em outros lugares. O impacto mais imediato pode tornar-se visível na França, onde Marine Le Pen é uma forte candidata à presidência. Sua vitória provavelmente significaria o fim da União Européia e, portanto, uma fratura completa da aliança ocidental criada após a Segunda Guerra Mundial.

Publicado originalmente em: http://politike.cartacapital.com.br/um-ocidente-fraturado-em-um-mundo-pos-ocidental/

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