Vidas Amazônicas: A importância da leitura para pessoas que vivem na periferia da periferia

 

 

 

 

 

 

 

 

Raimundo José Rodrigues de Oliveira, 49 anos, nascido e criado no bairro do Guamá, em Belém do Pará, coordenador do Espaço Cultural Nossa Biblioteca, falou um pouco sobre a sua trajetória de vida, o Espaço Cultural, a importância da leitura e o que espera da parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA).

Quando jovem Raimundo pretendia fazer eletrônica, mas para chegar ao local das aulas andava quase cinco quilômetros, vivia cansado e os professores não tinham boa didática. Neste período começou a ter contato com os movimentos sociais “uma parte era na biblioteca, outra no próprio bairro fazendo as coisas. De certo modo, eu tinha que ser professor. Acho que com uns dezesseis anos eu estava nisso. Tinha que falar para as pessoas, as pessoas me chamavam de ‘senhor’. Eu ficava encabulado e percebi que estava mais no caminho de ensinar do que outra coisa”.

Ao perceber que tinha vocação para ensinar o adolescente, negro e de periferia, se viu submerso em lutas pela melhoria do local onde vivia, “eu tinha que lutar por água, luz e outras coisas.  Estava mais envolvido no mundo da discussão política e no mundo da discussão política apareceu uma necessidade, eu precisava saber o que tinha acontecido. Então, optei pela história na UFPA”.

Paixão pela leitura - Por ser um reflexo do humano, a literatura é um canal de transmissão de mensagens e permite que a consciência realize simbiose com o mundo. Narra sobre o eu e o outro, desperta sentimentos/sensações (afeto, raiva, paixão, amor, medo), pois o leitor, no ato da leitura, se identifica com os personagens e para ter acesso ao conteúdo é necessário saber decifrar as letras, saber ler.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A primeira necessidade de leitura de Raimundo José foi para pegar ônibus. Seu pai trabalhava na feira e ele o acompanhava. Diariamente o jovem, de sete anos, tinha que caminhar quase três quilômetros carregando um saco de carvão na cabeça (porque na época em sua casa  não existia fogão a gás) e ele não conseguia pegar o ônibus porque  não sabia ler.

“Nosso dinheiro não sobrava nem para comer, então, eu era uma dessas pessoas que aproveitava a caminhada para catar o lixo. A falta de dinheiro me fez fazer esses recolhimentos, foi quando achei um livro bem grosso, era o velho testamento. Nessa época eu já sabia ler e fui lendo, fui lendo. Gostei de lê-lo, tinha muita guerra, e isso foi  desenvolvendo o gosto pela leitura”, explicou.

Para o professor de história, a leitura pode mudar a vida das pessoas, pois é a escada da vida no processo de aprendizado e o local em que nascemos influencia diretamente no tamanho da luta por direitos básicos. Neste contexto, a leitura seria um caminho que transforma vidas, a história humana, “com vontade de conhecer uma pessoa pode nascer onde for, mas se tiver esse acesso ao texto pode transformar a própria existência, pode ser o que quiser”, acredita Raimundo Rodrigues.

Espaço Cultural Nossa Biblioteca (ECNB) – O espaço que hoje recebe dezenas de crianças e jovens começou com o trabalho de freiras da Sociedade das Irmãs Médicas Missionárias  e era utilizado, inicialmente, como espaço de socialização para as freias entrarem em contato com o português e se tornarem mais próximas das crianças do bairro do Guamá, contudo, eram muitas sandálias na porta da casa das freiras e elas perceberam que aquele processo de interação precisava de mais atenção. Por volta de 1978, com ajuda das freiras, foi construída uma pequena biblioteca que, mais tarde, se tornaria o Espaço Cultural Nossa Biblioteca. 

“Alguns vinham como voluntários, aprendiam, achavam o trabalho bom. E nesse trabalho voluntário a biblioteca foi ficando, mas ela foi se tornando um espaço livre, porque em 1978 o Brasil não era livre, 1978 ainda era ditadura”, explica Raimundo. Naquele período a biblioteca acabou se tornando a única referencia de um espaço público capaz de receber reuniões de centros comunitários no Guamá.

O atual coordenador do ECNB conheceu o espaço em uma reunião de  centros comunitários do Guamá, da Condor e do Jurunas. Era uma reunião da Comissão dos Bairros de Belém, “a minha primeira reação foi encher os braços de livro, porque eu queria levar para casa e ler. Havia a agonia de ler. Fui sentindo a importância, não o reconhecimento. É uma coisa estranha. Eu não conseguia reconhecer naquela época aquilo como instrumento fundamental para mudar destinos. Fui reconhecendo com o tempo”.

Raimundo considera que o fato de estar reivindicando melhorias sociais em um espaço como a biblioteca era também uma luta política e, por meio das reuniões, foram surgindo propostas para que a comunidade tivesse um espaço maior e melhor estruturado para dinamizar as lutas que não estivessem diretamente ligadas as necessidade reivindicativas, “o pessoal também queria que os jovens participassem do teatro, dança, música. Parecia instintivo. Precisávamos fazer com que a luta fosse algo mais. Não só um pedir, mas também um criar. E ai veio a história de fazermos um lugar maior e desse lugar maior nasceu isso que nos temos aqui chamado Espaço Cultural Nossa Biblioteca”.

Promover o habito da leitura - “Quando a fundadora da Nossa Biblioteca conversava conosco ela dizia ‘mas vocês têm que entender a importância da leitura’. Uma mudança que aconteceu aqui foi termos compreendido o papel fundamental da leitura para o individuo. Se o indivíduo mudar a comunidade vai mudar também”, esclarece o professor de história.

Para Raimundo, ao conseguir fazer uma criança, um jovem ou um adulto se apaixonar pela leitura abre-se uma porta, um universo que permite que o indivíduo consiga ser o que desejar e compreender o que quiser, “porque o ser humano deixou tudo nesse código. O código das letras, da leitura. É como uma poesia, você pode botar emoção lá dentro. E quando você põe a emoção o texto se transforma. Então, assim como o texto se transforma ele transforma também as pessoas”.

Quando percebeu que o habito da leitura estava para além do entretenimento da mente, que ele consegue transmitir esperança, fornecer conhecimento, Raimundo e sua equipe compreenderam que os habitantes de uma periferia em um país periférico não existiam “só pra ser sobreviventes, mas, acima de qualquer coisa, enquanto estamos lutando, podemos fazer uma transformação pessoal também”.

As reivindicações individuais começaram a ganhar espaço no ECNB para que cada um perceba seu potencial de sensibilizar as outras pessoas e seja capaz de difundir a solidariedade, a justiça. “Esses indivíduos que o trabalho de leitura está preocupado. Nosso trabalho não era preservar a biblioteca, era promover o habito da leitura. Nesse contexto nos queremos criar mecanismos para a cultura de leitura. Famílias que têm a cultura de leitura, uma cidade que tem a cultura de leitura. Então, junto da cidade lutamos para criar leis. Junto das famílias  lutamos para criar o hábito, como um patrimônio para todas as pessoas”.

Parceria com a UFPA – A parceria com entre o ECNB e a UFPA começou com a busca de colaboradores que estejam dispostos a contribuir no projeto de construção de uma cidade de leitores.

Para Raimundo, propor uma cidade de leitores é olhar para o futuro, “quando fomos até a Universidade foi pensando que ela precisava conhecer nosso projeto, porque a UFPA é um sujeito do conhecimento que está fechado entre quatro paredes. Não se formam muitos militantes dentro da Universidade. Muita gente está sendo formado para o capital. Eu vou ganhar dinheiro, vou ter o meu carro, eu vou ter, não vou ser. Contudo, a comunidade deve ajudar a Universidade a ampliar seus horizontes”.

“Esperamos da universidade que ela abrace o projeto e trabalhe para não deixar isso aqui morrer. Que ela possa colaborar conosco para garantir  a sustentabilidade deste lugar até que o poder público reconheça a leitura como um direito e trabalhe para isso.  Quando isso acontecer vamos poder ficar em paz, porque bibliotecas povoarão essa cidade. A ideia é que a gente consiga juntos ampliar a nossa capacidade de transmitir a ideia e as discussões vão caminhar na construção de uma agenda comum”. 

Saiba mais sobre o ECNB: http://ecnb.blogspot.com.br/ e https://pt-br.facebook.com/ecnbiblioteca

Texto: Lucila Vilar.

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